Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

Chinesices

José Gil é um respeitado filósofo. O homem é de esquerda, o que só por si já é uma caução, mas não diz as mesmas coisas, nem da mesma maneira, que as pessoas de esquerda comuns. Aliás, um terço do que diz só pode ser entendido, quando pode, por quem tiver formação em Filosofia, e isto infunde respeito - as pessoas tendem a respeitar intelectuais que não se percebem.

Escreveu um livro que deu brado, O Medo de Existir, onde explica a condição de Português e as razões do tradicional atraso de Portugal, elegendo como nossos caracteres distintivos, entre outros, a influência da televisão, a não-inscrição (atenção, não é no recenseamento eleitoral nem no RSI), o medo, a inveja e o queixume. Lido penosamente o livro, fiquei a pensar que o caldo-verde, o galo de Barcelos, o fado e a pega de cernelha haveriam de ter merecido uma referência, ainda que passageira; que, não se podendo discordar de muito do que lá se diz, não se pode construir uma teoria do atraso baseada em traços que, a existirem, são consequências, mais do que causas; que a selecção de caracteres é inteiramente arbitrária (porquê aqueles e não outros?); e que uma análise onde não se fale de História, nem de Economia, nem de localização geográfica, nem do clima, nem das influências que sofremos, nem da Igreja, nem da pobreza do nosso solo, nem, nem... - é um exercício oco.

Pois o filósofo foi de peregrinação ao Oriente, com o propósito de "entrar um pouco pelo entre-pensamento para ver se há pontes". E como o local desta demanda foi Macau, a viagem bem poderia ter sido poupada, dado que existem pelo menos três, para a ilha da Taipa, o que se pode facilmente confirmar no Google Maps.

Concedeu uma admirável entrevista a um outro filósofo, presumo que local. A pergunta inicial era interessante, mas a conversa mergulha rapidamente a tais profundidades que falta o ar. Exemplo: "Mas não acha que o conceito de desejo também ganhou uma dimensão quase mítica, que contém em si mais do que uma mera força..."

Pergunto-me se algum leitor do jornal leu a entrevista até ao fim. E pergunto se alguém que está no espaço público e julga que tem respostas para as dúvidas e inquietações das pessoas não deveria pôr de lado o pedantismo e dizer ao que vem em português.

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publicado por José Meireles Graça às 22:00
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