Terça-feira, 27 de Dezembro de 2016

Comunicados a granel

"O que abomino no falecido é mesmo a música, se é que aquilo merece a designação", viu-se obrigado a esclarecer no Facebook um amigo meu, por alguns seguidores terem imaginado que a razão da aversão era a orientação sexual de George Michael.

 

Como o amigo em questão tem a pena muitíssimo afiada, e além disso suponho que não dá "amizade" a todo o cão e gato, é possível que não lhe caiam excessivamente em cima. Mesmo assim, diz uma leitora:  "Caramba, F....., foram só 100 milhões de álbuns que vendeu. 100 milhões que não percebem nada de música".

 

O argumento, é claro, não vale nada: desde que existe música gravada que gerações sucessivas de "génios" da música popular são idolatrados por milhões até que, mesmo que não cessem a actividade até morrer, vão decaindo em popularidade. Vivem ainda na memória dos que os amaram, porque estes, de cada vez que os ouvem, revivem as emoções e o tempo, por definição saudoso, em que eram mais novos; depois, passam à categoria de moribundos; e com o passar das gerações, e a chegada de revoadas de novos intérpretes, sobrevivem na wikipédia. Há aí muita gente que se lembre de Little Richard ou Otis Redding, para não ir mais para trás? E se, numa festa de cotas, alguém se lembrar de passar The Byrds, os infantes da casa não perguntarão, com um rictus de superioridade nas bocas frescas do verdor da idade e dos shots: quem são estes?

 

A cultura popular é efémera, na música como noutras artes. E Georges Michaels abundam na música anglo-saxónica, como aliás na nossa, à nossa escala. Ou acaso o cantor que mais vende, entre nós, desde 1988, não é Tony Carreira, cujos méritos virão a ser sepultados juntamente com as pessoas que lhe enchem os "concertos"?

 

Na literatura as coisas são menos claras, que o autor mais vendido ainda não é Shakespeare, como se poderia supor, mas Agatha Christie; e Barbara Cartland ocupa um honroso terceiro lugar, sendo que o quarto não é Tolstoy, que mal ultrapassa Corín Tellado. Mas é aposta ganha que o tempo corrigirá as hierarquias, mesmo entre nós, onde há uns tempos a novela mais vendida de sempre não era nem Os Maias nem o Amor de Perdição, mas A Rosa do Adro, que trata de "uma jovem alegre e despreocupada, portadora de rara beleza e senhora de uma voz melodiosa, cujo som ecoava pelas quebradas dos montes" - um pastelão.

 

Sucede que a música faz sonhar, sorrir, chorar, mexe connosco ou, ao menos, a maior parte de nós, e portanto um caramelo que nos venha com argumentos, estéticos ou outros, demonstrar que gostamos de lixo é um agressor porque destrata os nossos sentimentos. As pessoas, se perguntadas sobre que género de música ouvem, respondem com frequência: ah, eu gosto de toda a música, desde que seja boa. E se o abelhudo insistir, e quiser saber o que é música boa, podem vir argumentos sofisticados, sobretudo em se tratando de gente que se abastece de opiniões em artigos e publicações sobre o que aprecia, mas no essencial quererá dizer: música boa... é aquela de que gosto.

 

Manda portanto a prudência que, em matéria de música, guardemos as nossas opiniões para nós, a menos que saibamos discretear sobre os méritos relativos das missas, paixões e oratórios de Bach, caso em que ninguém se ofende, até porque ninguém lerá. E em literatura estamos à vontade, se não pertencermos à tribo dos literatos (se pertencermos é mais seguro aderir à escola do elogio mútuo), porque ainda há menos gente a ler sobre literatura do que a propriamente dita. As artes plásticas são igualmente seguras, desde que haja o cuidado de dizer coisas profundas que signifiquem nada.

 

O critério da quantidade para hierarquizar os autores de obras ouvidas, lidas ou vistas, só serve se tivermos a maçada de esperar bastante mais tempo do que o que temos de vida, do mesmo modo que os que retemos do passado quase nunca são os que os contemporâneos endeusaram.

 

Mas podemos imaginar quem, morrendo, se vai libertar da lei da morte, ao menos por algum tempo; e decerto sabemos quem são aqueles de que nos despedimos com comoção, abalados colectivamente porque engrandeceram, ou simplesmente melhoraram, o país, assim como reconhecemos a algumas personalidades estrangeiras importância que faz com que não nos - a nós, portugueses - sejam indiferentes.

 

George Michael era um desses? Não, não era. E por isso estas palavras - "Manifesto o meu pesar pela morte de George Michael, um artista e compositor versátil e talentoso, com uma longa carreira de inequívoca qualidade" - diminuem-nos.

 

Fiquemos gratos porque o cão-de-água português que vive na Casa Branca ainda não morreu. Marcelo deve entender tanto de música como de canídeos, e nesse óbito veria decerto razão para um comunicado, visto haver aí uns 2% de portugueses que acham o animal "fofo".

 

Exagero? Não. A censurar a arara que elegemos para a presidência da República é cada vez mais difícil exagerar.

 

P.S: Julguei que o meu amigo do Facebook se tinha arriscado a desagradar aos fãs de George Michael. Não, parece que afinal ofendeu o lobby gay, mesmo tendo-se dado ao trabalho de esclarecer que se estava nas tintas para a orientação sexual do artista, circunstância que de modo nenhum influenciava a sua opinião, nem naquele caso nem em nenhum outro.

publicado por José Meireles Graça às 12:50
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Nos hospitais portugueses há 50 anos havia mulhere...
Só falta mesmo é a Ordem das Sopeiras, quero dizer...
O jornalismo cairá, por cá, como vai caindo por lá...
O conselho que costumo oferecer aos meus correspon...
Não percebo a admiração. O jornalixo cá do burgo m...

Arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter