Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

Conselhos dermatológicos

Há tempos, Passos Coelho perguntava, exasperado, como se esperava que houvesse estrangeiros dispostos a investir em Portugal quando o governo assentava numa aliança com comunistas (disse isto ou coisa parecida, não tenho vagar para procurar).

 

O comentariado caiu-lhe, previsivelmente, em cima. Passos é odiado, e não apenas detestado, pela esquerda, porque não é da variedade de direitistas de faz-de-conta, como Cavaco (este, se fosse sueco, seria socialista, se lá se admitem socialistas cabeçudos que nem falar sabem), ou Marcelo (que seria igualmente socialista, se fosse francês e lá se admitissem - creio que sim - socialistas incontinentes verbais). E é igualmente abominado por muita direita que lhe execra as profissões de fé, de resto raras, social-democratas, e a acção governativa, que foi insuficientemente reformadora e que, pelo menos numa certa perspectiva, talvez não inteiramente justa, das coisas, privilegiou o aumento de impostos e não o corte na despesa.

 

A estas duas correntes há que acrescentar personalidades avulsas e revulsivas, como Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite, ou homúnculos que inexplicavelmente poluem o espaço de opinião pública, como Pedro Marques Lopes ou Marques Mendes.

 

Por mim, tenho vindo a ganhar respeito ao homem, porque lhe aprecio a teimosia, até mesmo no asneirol ocasional, e porque se é depositário de um ódio tão persistente do establishment esquerdista, isto é, quase toda a gente, e isto sem que nunca ninguém lhe tenha vislumbrado inclinações antidemocráticas, algum mérito terá de ter.

 

Gente ingénua supõe, porque a comunicação social veicula a ideia, que a doce Mariana é uma azougada filha-família da revolução romântica, a quem sobra em voluntarismo o que falta em senso; que a actrizinha de segunda escolha que se espraia em considerações sobre quanto assunto está na ordem do dia do debate político, e que lidera nominalmente o BE, tem no caco mais do que uma recauchutagem serôdia e colada com cuspo de quanta doutrina marxista aflige a humanidade vai para cem anos; e que o Bloco é um partido social-democrata radical, que pretende curar os males e os desequilíbrios do capitalismo por via fiscal, sem todavia pôr em causa a propriedade privada dos meios de produção e as poupanças, qualquer que seja a sua forma, nossas porque as ganhamos, ou recebidas de ascendentes que quiseram legar à prole o que sobrou de exacções fiscais anteriores.

 

A receita do BE tem provado ser mais popular que a dos comunistas, porque promete o mesmo mundo igualitário sem a carga imensa do desastre económico e humanitário que foram e são todos os regimes comunistas.

 

O movimento comunista internacional histórico tem um representante, o PCP, que defende naturalmente quanto regime decrépito nasceu faz décadas, como o norte-coreano ou o cubano; e o BE guarda o seu apoio, e a sua solidariedade, para a Venezuela chavista, para o Syriza, ou para o Podemos que um demente espanhol lidera, porque são modernos, empunham firmemente a bandeira das causas com que alguma gente nova sonha fazer o céu na terra, parecem isentos de violências e terrores, e ainda não foram verdadeiramente testados (salvo o venezuelano, donde o silêncio cúmplice até que se possa afirmar que a CIA fez cair o regime, ou que Maduro não tinha as excelsas qualidades de Chavez).

 

É isto que explica o apoio embaraçado do PCP a Angola e as críticas veementes  que o BE dedica aos atropelos aos direitos de cidadãos angolanos; e é isto que explica o sucesso eleitoral do BE  ̶  não são comunistas, credo, eles em tendo poder porão os ricos na linha e teremos finalmente investidores que querem apenas genuinamente criar riqueza e postos de trabalho, mas não lucros senão os que distribuem em prémios comedidos pelos trabalhadores, gestores beneméritos que salvam empresas sem que ganhem mais do que o quartil superior de um leque apertado de salários, herdeiros mas apenas dos álbuns de fotografias da família, ricos por se deslocarem em carros de gama média e não utilitários, além de terem nos casos mais salientes uma quintinha para férias, e de forma geral cidadãos obedientes a um Estado igualitarista e perfeitamente livres de guardar tudo o que não suscite a cobiça do vizinho e pensar tudo o que os mandarins do pensamento não achem sexista, racista, imperialista, machista, fascista e uma extensa, e crescente, lista de outros istas.

 

Na prática, não há qualquer diferença entre a soturna, e sinistra, cartilha de Jerónimo e o discurso da simpática, desempoeirada e até (para mim, que sou sexista e tenho muito mais inclinação para prestar atenção à carinha - e ao resto - de Mariana do que às tolices que vai expectorando) encantadora pasionaria de Alvito e das marchas LGBT. E isto mesmo que, surdamente, os comunistas autênticos detestem os bloquistas, as suas sapatilhas de marca, a sua indisciplina e o seu relativo sucesso.

 

Porque é equivalente eliminar os ricos, isto é, os que assim são considerados depois de os verdadeiros terem sido destruídos no PREC, e de os poucos que ainda sobram ou renasceram terem prudentemente o grosso dos seus cabedais a bom recato, expropriando-lhes os bens e nacionalizando-lhes as empresas; e ir lentamente, por via fiscal, taxando não apenas os rendimentos mas também o capital, começando por taxas ou limiares que não pareçam confiscatórios e ir aumentando  ̶  como a rã que não salta se mergulhada em água morna e se vai adaptando ao aumento de temperatura até que morre cozida.

 

Quererá mesmo o PS ser “alternativa ao sistema capitalista”? E até que ponto?  ̶  pergunta Mortágua, e as fotografias mostram um Galamba, o rebo de serviço do PS, embevecido.

 

Olha, filha, querida, se a dúvida é essa estou em condições de esclarecer: O PS está com Costa porque Costa inventou uma receita inusitada para salvar a pele, e isso deu-lhe poder para distribuir tachos; e correrá asinha com ele logo que a estrela se lhe apague. O PS de hoje parece liderado pelo BE e sê-lo-á na exacta medida em que isso permita a Costa fazer aprovar a legislação que a Europa possa fingir que não está a ver onde conduz. No teatro europeu representa-se uma peça de teatro, e a plateia não veria com bons olhos que se empurrasse um actor desastrado: é preciso que ele caia pelo seu pé.

 

Caia em breve, ou mais adiante, o PS, anticapitalista não é. E logo que haja oportunidade isso mesmo te dirá um Francisco Assis, um Sérgio Sousa Pinto ou até uma das rolhas que, desde Guterres, servem com devoção a causa socialista e o líder do dia, desde que devidamente acolhidos no quente regaço do Orçamento de Estado. Depois é claro de uma travessia do deserto, porque quanto mais tempo durar este governo mais créditos políticos (e débitos em metal sonante) terá o seguinte.A boa pergunta é portanto: esta primavera esquerdista, e a tua celebridade, durarão até te aparecerem as primeiras rugas?

 

Acho pouco provável. Razões pelas quais não aconselho uma basezinha tonificante, mas recomendaria um creme. Para as espinhas.

publicado por José Meireles Graça às 12:18
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