Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017

Depois de mim, o Dilúvio

Paulo de Almeida Sande, um terrorista europeu que escreve no Observador, defende naquele jornal os seus patrões apátridas com argumentos que convencem os convencidos mas podem influenciar negativamente cidadãos distraídos que calhem de lhe ler a prosa capciosa. Vejamos:

 

"Houve, na escolha da primeira Presidente francesa da História da velha nação de Vercingétorix, uma sensação de déjá vu: tal como na eleição de Donald Trump, uns meses antes, ou na opção eurífuga dos britânicos no verão de 2016, o resultado foi uma surpresa. Ou teria sido, não fora essas precedentes surpresas".

 

Os eleitores ingleses que optaram por sair da União nunca, presumivelmente, elegeriam um Trump inglês, embora entre aqueles filhos da Ilha haja uma considerável quantidade de originais de toda a sorte e feitio, incluindo loiros ricos com penteados ridículos, por terem um compreensível receio de que o eleito, pela sua grosseria, pudesse ofender Sua Majestade, por não quererem ser representados por cockneys com sucesso e porque para governar a pérfida Albion há que ter a maçada prévia de passar pelo Parlamento, onde os impulsivos não vão longe; e a velha nação de Vercingétorix finou-se há muito - os franceses são tão celtas como nós. Donde, a mistura no mesmo parágrafo de três fenómenos tão diferentes não serve o propósito de ilustrar a falta de surpresa de uma possível vitória de Marine Le Pen, pretende insinuar que esta seria tão imprudente como o Brexit e as duas coisas tão loucas como Trump.

 

Bem visto, Paulinho. Salvo que o Brexit, até agora, não se materializou em nenhuma das desgraças anunciadas, Trump não causou nenhum estrago que os seus eleitores não aprovem e Marine... não foi eleita e, se o for, causará grandes danos à França e bastante maiores aos milhares de apparatchiks que vivem à sombra da União. Ou seja, os Franceses calçar-lhe-ão os devidos patins em tempo útil e ela deixará possivelmente em herança os Estados Unidos da Europa num frangalho - óptimo, pode ser que a famosa flexibilidade europeia consista desta vez em encostar a famosa bicicleta de Delors, na qual este celebrado pai da "pátria" europeia nunca devia ter pedalado, e se faça marcha atrás - a pé.

 

"Ambas as escolhas apontavam para um novo paradigma: o de um Mundo que reconstrói fronteiras no sentido mais inflexível do termo, com muros, interdições e vistos. Um Mundo em que o Outro é suspeito e mal-vindo. Em que patriotismo e nacionalismo se confundem, pois um bom patriota não pode senão colocar o seu país primeiro, contra tudo e todos, e onde esses todos são, por definição e até prova em contrário, a ameaça".

 

O mundo que reconstrói fronteiras é o dos cidadãos que veem o que a casta dirigente não quer ver: hordas de emigrantes que a comunicação social classifica sempre como refugiados, inassimiláveis se muçulmanos, em demasia e oferecendo mais problemas que soluções se admitidos sem critério. O resto é a definição idiota de patriotismo moderno: gostar do seu país desde que não seja seu.

 

"Um Mundo de barreiras oposto a um Mundo sem barreiras. Curioso é que, sempre que fecho as portas ao Mundo, ele fecha-mas a mim; ora o Mundo é muito maior do que eu, não é? Maior do que Trump, a Europa ou o Ocidente, até. Durante 500 anos fizemos de conta que ele cabia no espaço da civilização que criáramos; sabemos hoje que somos, portugueses, europeus, ocidentais, uma parte pequena da Humanidade, que há muito deixámos de dominar".

 

O Mundo de portas sempre abertas para todos sofre do defeito, além de ser uma miragem, de ter a detestável tendência de toda a gente querer emigrar para os mesmos sítios. E se é de liberdade de comércio que estamos a falar talvez venha a propósito lembrar que a União Europeia é proteccionista - tão proteccionista que ameaça com sanções quem se atreve a querer abandoná-la, como fazem os gangues aos trânsfugas; e que a CEE servia perfeitamente, dentro da Europa, o propósito da livre troca, não tendo que evoluir para coisa alguma. Quanto aos "portugueses, europeus, ocidentais" que deixaram de dominar o mundo convirá lembrar que do facto não decorre a necessidade de os portugueses deixarem de o ser; e que o mundo que já não é dominado inclina-se a querer ser cada vez mais parecido com os antigos dominadores.

 

"... e a Holanda, paraíso fiscal por excelência, escolhera um primeiro-ministro de extrema-direita, islamofóbico e proteccionista".

 

Ainda bem que a Holanda (como a Irlanda) tem uma fiscalidade mais amiga das empresas. Que a única garantia que ainda há na triste Europa de que fundar uma empresa não seja, como em boa parte já acontece, uma maneira de ser escravo do Estado, é haver concorrência fiscal. E, a propósito, longa vida aos paraísos fiscais (que infelizmente a Holanda não é) porque neles mora não apenas dinheiro de tráficos obscuros mas também o que se quer subtrair à rapacidade demencial de burocratas rentistas e esquerdistas invejosos. Finalmente: Geert Wilders é islamofóbico? Pois parece que um crescente número de holandeses aos quais não assistem as luzes que iluminam a cabeça civilizadíssima de Paulo também.

 

O resto é um cenário de horror, que consiste basicamente na mesma mensagem aos eleitores:

 

A coisa pública é demasiado complicada para que o eleitor médio a entenda, e pior se o português tivesse alguma coisa a decidir sobre a vida do polaco, ou o polaco sobre o italiano, ou o alemão sobre o espanhol. Quem sabe o que convém a todos são funcionários polacos, italianos, alemães, espanhóis, e Paulos Sandes, que ninguém escolheu e que não respondem perante ninguém. Para fingir que não é assim há umas eleições europeias, cujos resultados, país a país, têm tudo a ver com a situação local e nada com a Europa. Depois, os felizes eleitos vão torrar milhões para Bruxelas e Estrasburgo e tratar de reformas - sobretudo a deles. Se porém o eleitor quiser pôr fim a este estado de coisas cai-lhe o céu na cabeça, porque o terreno está minado.

 

Estará. E devia ser o papel dos políticos fazer como obedientemente fez Theresa May e a maioria do Parlamento britânico - o povo decidiu, está decidido, há que negociar o melhor possível. País a país ou, quando for necessário, na própria União.

 

Será a burocracia europeia capaz?

 

A julgar por este artigo, não. Que o que diz até agora é isto: nós é que sabemos quantos emigrantes da África, do Médio Oriente, do resto do mundo, cada qual deve acolher, e nós é que sabemos de história, de economia, de finanças, e das dimensões convenientes para as sanitas; ingleses, holandeses, franceses, são povos assolados pelo mesmo vírus que infectou os americanos, se bem que não seja certo que a epidemia alastre. Graças a Deus poupou o bom aluno Portugal - a sua opinião pública, a publicada, a sua classe política, e Paulo.

 

Não é que tenhamos alguma coisa a escolher: um país pequeno, remoto e falido, se perguntado, diria que enquanto não formos contribuintes líquidos - e nunca o seremos - a Europa está muito bem como está.

 

Há o risco de parar de pingar. Mas isto ainda é o menos porque, diz Paulo:

 

"A minha máquina do tempo, como os amigos leitores sabem, falha algumas vezes. Ainda pode ser de outra forma, perguntarão? Pode, claro. Mas depende do que fizerem os homens e mulheres de boa vontade, cientes do abismo aberto sob os nossos pés. Não, o populismo triunfante, nacionalista e exclusivista, não é coisa leve, efémera e benigna que passará se formos pacientes e obedientes. Sabemos o que acarreta esquecer o que a História nos ensina".

 

Atenção, homens e mulheres de má vontade, holandeses, franceses e tutti quanti (ingleses não, que são um caso perdido): Paulo não tem que mudar, quem tem que mudar sois vós. Acabem lá com essas ideias peregrinas de saberem o que vos convém. Quem está ao corrente do que é melhor para todos, de Lisboa a Bucareste, de La Valeta a Helsínquia, é a classe dos Paulos, que é modesta a ponto de nem precisarem de os conhecer, e que se sacrifica anonimamente a troco de uma vida confortável. Os lúcidos são portanto estes, devidamente acolitados pelos homens e mulheres de boa vontade.

 

Como é que distinguem os bons cidadãos dos maus? É fácil: os bons garantem a paz e as sinecuras de quem os pastoreia; os maus não. E todos, com excepção dos pastores, recebem em suas casas aqueles de quem querem distância.

publicado por José Meireles Graça às 13:00
link do post | comentar
4 comentários:
De Terry Malloy a 8 de Fevereiro de 2017 às 22:19
Le Pen será apenas, se o for, o epitáfio.

O 3º acto.

Os dois primeiros foram:

1º - a repetição de referendos nacionais sobre integração europeia até darem o resultado "que interessava".

2º - a revanche sobre o Estado soberano cujo povo toma a decisão democrática de sair do grupo - estilo gangue, como você bem caracterizou.

Inês é morta.

Quanto à imigração em massa, é um exemplo extremo do "moral hazard" da decisão política: nós, os decisores, promovemos as medidas caridosas e progressistas (a abertura de portas), vós, o povaréu, assumem os custos - pois os refugiados de vária ordem não consta que tenham conseguido alojamento na Lapa, no Chiado ou na Quinta Patiño. Ou emprego como altos quadros do Estado.

Infelizmente, ainda não conseguiram eliminar essa maçada que é o voto...
De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2017 às 22:22
Errata: vós assumis.
De José Meireles Graça a 8 de Fevereiro de 2017 às 22:49
Onde está isso, que não encontro?
De Anónimo a 9 de Fevereiro de 2017 às 09:56
O erro?

No meu post.

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Na parte do financiamento sim, e essa definição po...
capitalista estatal isso sim.
Ainda bem que o leio (de volta).Andava a matutar s...
O importante é que a permissão não contitui uma ob...
Eu fui bem educado por meus Pais e pelos meus Prof...

Arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

universidade de verão

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter