Sábado, 12 de Setembro de 2015

Derby

Foi trasantontem o derby histórico. Pelo menos, foi assim trombeteado pelos telhados dias a fio pelos canais generalistas e noticiosos, que são os mais vistos.

 

Sucede que debates históricos, entre nós, até à data, houve um, em 1975, que envolveu o então Kerensky doméstico, hoje um revisionista de si mesmo, de um lado, e, do outro, o Lenine local. Esse teve importância, por ser plausível ir-se a caminho de se transformar o país numa Cuba friorenta, coisa que a maioria dos cidadãos via com asco, e as chancelarias do nosso lado do mundo com preocupação, e o resultado dele serviu como catalisador do movimento social anticomunista. O país que temos hoje seria possivelmente o mesmo se Cunhal tivesse "ganho", mas o debate teve a marca de um momento único e a carga simbólica de uma encruzilhada.

 

Suspeito que mesmo esse a geração mais bem preparada de sempre ignora. E é aliás por os ignorantes não interpretarem o presente como um continuum do passado, que desconhecem, e não terem noção da importância, ou falta dela, de Portugal na Europa e no mundo, que não há uma final de uma competição desportiva, ou um novo triunfo de Ronaldo, ou o reconhecimento de um sucesso qualquer de um investigador ou de um artista nacional, que a torto e a direito somos brindados com a qualificação de histórico para cobrir banalidades e efemérides - tudo parece muito importante quando não é visto em perspectiva.

 

O debate não foi "histórico". E "derby" também não: nem houve corrida de cavalos (quando muito, forçando a nota, uma mula manhosa e um cavalo cansado), nem outra competição desportiva em campo aberto, e ninguém estava de chapéu.

 

Passos perdeu, na contabilidade de truques e traques, e a nação rosa entrou em delírio: todos os cortes serão anulados; o país acelerará o crescimento; as apostas na ciência, na educação, na formação, na qualificação, no investimento público, serão retomadas; os emigrados começarão a retornar à terra socialista que lhes deu o ser, onde os salários subirão porque o modelo da competitividade (Costa diz competividade porque conhece a palavra de oitiva e Edite Estrela, a gramática de serviço, ainda não reuniu coragem para o corrigir) baseado nos baixos salários será abandonado; e apenas o TGV e a nova ponte sobre o Tejo não verão tão cedo a luz do dia, não vá imaginar-se que Costa não é abissalmente diferente de Sócrates.

 

Ignora-se se o eleitorado comprará este amontoado de tretas; e, na dúvida, o próprio garantiu, e é capaz de cumprir de imediato e durante algum tempo, que devolverá aos reformados e contribuintes o que lhes foi retirado, com receitas que hão-de vir do crescimento, das portagens, das autoestradas, do imposto sobre as heranças e os ricos, ou por intercessão de nossa senhora de Fátima ou do senhor Draghi, confiante em que os reformados que sofreram cortes (a menor parte do universo deles, aliás) mordam o isco e isso seja suficiente para fazer a diferença.

 

Sobre o que valem os debates dizia Eduardo Cintra Torres, em trabalho académico recente, o seguinte: "Mas a hipótese mais significativa que colocamos é a de que a impossibilidade de provar uma relação directa entre os debates e a intenção de voto deve ser incorporada na teoria sobre o assunto, menos como uma dificuldade metodológica do que como uma comprovação de que os indivíduos não se comportam como espectadores de debates da mesma forma que como eleitores".

 

Sobre o debate em si, devo ter lido para cima de trinta opiniões diferentes, de um lado e outro da barricada, em geral sérias, descontados os enviesamentos das simpatias partidárias - de que aliás também sofro, porventura menos do que muitos.

 

Creio porém que dois aspectos não foram suficientemente assinalados: um é o de que Costa se revelou um mentiroso contumaz e consciente, a tal ponto que a ideia de que é igual a Sócrates é não apenas um slogan político para o colar àquele desclassificado mas a enunciação de um perigo real: a afirmação despudorada de ter reduzido o endividamento de Lisboa em 40% (a operação de compra de terrenos que lhe fizeram, puramente de ocasião, caiu-lhe do céu e teria sido feita por qualquer outro edil nos mesmos termos), o mantra inteiramente fabricado de a coligação ter ido além da troica e a sugestão de ter sido o PSD responsável pelo convite à sua vinda ilustram o ponto. A propósito, não faltam por aí socialistas, e outros mentecaptos, a argumentar que se o PEC IV tivesse sido aprovado a tróica não teria vindo, mas cabe fazer a pergunta óbvia: se o PEC IV continha o futuro programa da tróica, e por isso garantia a continuação de financiamento, Costa queixa-se de o PS ter sido impedido de executar um programa do qual se queixa?

 

Passos foi apanhado de surpresa por este culot, e não reagiu à altura. De resto, o formato do programa, em jeito do twitter, que não permite o desenrolar de nenhum raciocínio, beneficia quem tem agilidade no discurso e ideias gerais a fazer passar em frases curtas - Costa é nisso melhor.

 

O outro aspecto é que o desconforto do incumbente veio-lhe também de um erro crasso do argumentário do PàF, que consiste em negar que a coligação desejava o programa do MoU. Nesse programa os prazos e as metas não eram os desejáveis, e não foram aliás cumpridos - as instâncias internacionais estão recheadas de teóricos da economia, bancários e pataratas, com perdão da redundância, e precisam primeiro de fazer asneiras, e ver o empenho dos devedores, para emendarem a mão. Mas o murro na mesa dos credores era não apenas inevitável como desejável: se tivesse vindo mais cedo seria a dívida menor. E negar que as ideias gerais do programa eram uma medicina dolorosa mas necessária, e que assim foi desejada e entendida pelo governo da coligação, é o mesmo que dizer que, agora que se foram embora, podemos, com um pouco mais de cuidado, voltar aos bons velhos tempos. Parte do eleitorado sabe disso. E se todos o aldrabam pode sentir-se tentado a escolher quem é, na aldrabice, especialista.

 

Não podemos voltar. Diz-se por aí que as instâncias europeias, escarmentadas, farão com que não haja diferenças de monta, em matéria orçamental, entre um governo da esquerda ou da chamada direita. Talvez. Mas o governo não é apenas o orçamento, o diabo está nos detalhes, e não há limites nem para a ingenuidade dos nossos louros supervisores nem para a capacidade tuga de aldrabar - querendo.

 

Costa, está visto, quer. Como verão os eleitores enganados e os credores arrepelando os cabelos - se ganhar.

publicado por José Meireles Graça às 16:26
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