Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

Desígnio nacional

O presidente Kennedy, com a sua queda para os exageros retóricos e as grandes proclamações ocas, uma inclinação da qual Obama se revelou um competente herdeiro, chamou-lhe "o maior estadista do nosso século". Se o tivesse sido, seria hoje tão famoso como Churchill, cujo nome é por certo reconhecido por quase metade da geração mais bem preparada de sempre (a outra metade supõe que é uma marca de sapatos). Mas não: Dag Hammarskjöld é tido como o melhor secretário-geral de sempre, recebeu um prémio Nobel póstumo - mas quase ninguém sabe quem foi.

 

Ninguém sabe quem ele foi e menos ainda U Thant ou Pérez de Cuéllar. Os secretários-gerais distinguem-se por serem políticos supranumerários de países pouco poderosos: a Noruega e a Suécia são decerto países respeitáveis, a Áustria (que pariu para a comunidade internacional um Kurt Waldheim, de suspeita memória) outro tanto, o Gana e o Egipto despertarão um alguma estranheza e o outro algumas reservas; nem a Birmânia nem o Peru são conhecidos como potentados, sequer regionais, ou faróis da civilização; e a Coreia do Sul, de onde é natural o actual secretário-geral, é um país que, tal como o Volkswagen Golf, é de confiança mas apenas de gama média.

 

Isto não é fruto do acaso: a ONU é uma organização onde se chocam interesses e ideologias, países com história e outros nascidos anteontem, superpotências e potências em bicos de pés, pequenos, médios, grandes, minúsculos países - uma torre de Babel de 192 entidades, cada uma com um voto, que serve para fazer maiorias que qualquer dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança pode vetar, e que qualquer país cioso da sua independência pode ignorar, se tiver apoios e vontade bastantes para o efeito.

 

Para tudo isto e muito mais é preciso um mestre-de-cerimónias: convém que fale línguas, sobretudo inglês; que saiba receber os convidados e lhes conheça as susceptibilidades, de modo a nunca correr o risco de as ofender; que alimente a imensa burocracia internacional que se acolhe sob o chapéu da ONU e suas agências, administre os conflitos e mantenha contentes as máfias e intocadas as parasitagens; e que pronuncie sonoros discursos urbi et orbi que soem bem à opinião pública internacional por não irem nunca além das intenções piedosas nem defenderem outras ideias que não sejam o bem-pensismo sobre ambiente, economia, igualdade, justiça  ̶  tudo adequadamente difuso para que os embaixadores da Arábia Saudita, da China, dos Estados Unidos, e do Vanuatu, possam em simultâneo aplaudir.

 

Cargo difícil, sem dúvida. E Guterres parece superiormente talhado para ele, porque os seus defeitos são essenciais para um bom desempenho, e as qualidades, que abençoadamente não tem, seriam um estorvo. O homem, de facto, não tem coluna vertebral, um sério empecilho se ao mesmo tempo se quer defender os direitos das mulheres e respeitar o lugar que o Irão deterá em 2018 na Agência que se dedica a promover a igualdade entre os sexos; não tem a mais remota capacidade de controlar custos e promover a eficiência (características abundantemente demonstradas no exercício das funções de primeiro-ministro de Portugal), o que lhe garante não vir a ter problemas sérios com a nomenklatura interna - com os resmungos dos países maiores pagadores pode ele bem, se eleito; é a favor da democracia mas tem um acrisolado respeito pelas ditaduras, desde logo porque sob esse regime vive a maioria dos membros da Assembleia-Geral; e já demonstrou que convive bem tanto com Angelina Jolie como com qualquer chefe de guerrilha ou de Estado. Guterres é pau para toda a colher e a do tacho da ONU, ainda que não particularmente gorda, encaixa nele com naturalidade.

 

A eleição é duvidosa e confesso a minha parcialidade: a perspectiva de ver Guterres a ajeitar a melena em conjunto com os problemas do mundo é-me simpática porque, a correr bem, sempre seriam dez anos com ele longe das nossas costas. Tirando isso, que não é pouco, não vejo que interesses do nosso país estão em jogo com a sua eleição.

 

É por isso que estranho o empenho nacional na candidatura. Que Adriano Moreira se espraie em considerações sobre o papel da ONU, a reforma da ONU, o futuro da ONU, e o da Humanidade, que julga estar ligado ao daquela organização, é natural: o homem não faz outra coisa há anos, e ainda que nunca tenha dito senão banalidades doutorais e pomposas (quando se compreende o que diz), com essa actividade granjeou considerável prestígio junto de quem imagina ter luzes. E que o primeiro-ministro veja na eleição de Guterres um grande triunfo para o país é também compreensível: sempre é um correligionário. E podemos ir a ponto de aceitar que Marcelo vá a Nova Iorque fazer campanha, ainda que o propósito da deslocação seja vagamente ridículo: Marcelo vai a todo o lado dizer coisas, seja Freamunde ou Tombuctu, bem pode ir também à Meca do capitalismo encantar anónimos com a sua espontaneidade.

 

Agora, a televisão que nos massacra todos os dias, e os jornalistas que escrutinam os desígnios de estadistas, num ambiente de casa dos segredos, como se fôssemos, mesmo remotamente, viver melhor ou pior por causa do triunfo, ou da derrota, do nosso herói, desafiam o senso.

 

Ou talvez não. Que na realidade estamos falidos e vivemos de esmolas, mas e o campeonato da Europa, hem? Organizámos um e ganhamos outro, essa é que é essa. E a Noruega até pode ter o orçamento equilibrado e o rating AA+ mas nunca teve um Alto-comissário para nada e nós já tivemos dois, e logo dois estadistas refulgentes, Sampaio e o agora futuro secretário-geral, que decerto empanará o brilho de Dag Hammarskjöld.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 12:23
link do post | comentar
1 comentário:
De Justiniano a 29 de Setembro de 2016 às 15:18
Achei particularmente bem esgalhada a do exíguo Moreira!! Sem dúvida, o mais fiel retrato de A. Moreira "..o futuro da ONU, e o da Humanidade, que julga estar ligado ao daquela organização, é natural: o homem não faz outra coisa há anos, e ainda que nunca tenha dito senão banalidades doutorais e pomposas (quando se compreende o que diz), com essa actividade granjeou considerável prestígio junto de quem imagina ter luzes."

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Mas já era assim há dez, há vinte, há trinta...
Tem razão, mas o homem tem 94 anos ...
As sondagens não contam as opiniões da maioria dos...
É o que merecem os crentes -maioria dos cidadãos, ...
Perfeito

Arquivos

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

fmi

francisco louçã

geringonça

gnr

governo

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

jugular

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário nogueira

mário soares

mba

miguel relvas

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter