Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015

Elevando as massas (e outros produtos)

arar_yang_v.jpg

 

A senhora vai ao armazém todos os dias e desempacota algumas caixas. Poder-se-ia pensar que dali sairiam rolos de papel higiénico, detergentes, fraldas de bebé, sacos de arroz e açúcar - toda a imensa lista de artigos que fazem o dia-a-dia da dona de casa contemporânea. Das grades, porém, só poderia sair cerveja ou refrigerantes, ainda que, desgraçadamente, à temperatura ambiente.

 

Desta escultura que assim se transfigura em performance não era difícil inferir um libelo contra a sociedade de consumo, o sexismo, a poluição, a fome no terceiro mundo, o diabo - boa parte da obra de arte contemporânea contém a mensagem que o crítico quiser, mesmo que o artista se pronuncie com a sua interpretação autêntica, desde logo porque ninguém percebe o que ele diz.

 

Mas não: daquele monte de tralha saíam diariamente gravuras, pinturas, colagens e esculturas, e assim quem foi ver a exposição todos os dias foi deslumbrado com a fecunda imaginação da artista. E a obra foi ainda enriquecida com o material das embalagens, que passou a fazer parte depois de desembrulhados os tesouros, e ainda peças de outros artistas, que se misturaram no acervo por acaso - informa Haegue Yang com louvável candura.

 

Esta sul-coreana genial vai, sob o patrocínio da Sonae e da Fundação de Serralves, criar obras para o Parque de Serralves, é uma alegre notícia de ontem. A Sonae, presume-se, fornecerá os materiais, ignora-se se oriundos dos supermercados Continente ou de qualquer das fábricas do conglomerado.

 

Mal posso esperar. Não pelos trabalhos: tenho a lixeira municipal de Gonça aqui perto, bem como o minimercado Sequeira (na hipótese de os trabalhos serem na área de secos e molhados), pelo que a curiosidade que me move não tem a ver com objectos mas opiniões.

 

Estou certo de que serão entusiásticas. O bom burguês do Norte frequenta os jardins e o restaurante e, pelas exposições, só não passa a correr porque fica mal. Mas elas não são feitas para ele, que, coitado, se inquirido, não saberia o que dizer. Os críticos, os críticos é que quero ouvir. Se forem membros dos corpos sociais, melhor: que a obra de arte faz-nos bem ao coração, e as opiniões de entendidos ao fígado - este desopila, como é geralmente sabido, com gargalhadas.

publicado por José Meireles Graça às 12:37
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