Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Estatuária revisionista

Na Assembleia da República está, ou vai estar, uma exposição de bustos dos presidentes da dita. Pessoa de bom critério, que viu a galeria pela televisão, comentou que aquilo era uma bonecada - se fossem grandes pareciam uns cabeçudos. Ou robertos, como também se diz aqui pelas berças.

A coisa gerou uma grande indignação da comunistada: "A defesa da democracia não é compatível com o branqueamento do fascismo e dos seus responsáveis políticos", declarou o líder parlamentar do PCP. Pelo BE, Pedro Filipe Soares pediu o cancelamento da abertura da exposição, prevista para esta quinta-feira, por considerar que os presidentes "do fascismo" não podem estar "no mesmo patamar que os Presidentes eleitos democraticamente".

Há, na vida pública portuguesa, uma hipocrisia tácita, que consiste em fingir que os comunistas, quando invocam a democracia, estão a falar do mesmo regime a que se referem as restantes pessoas. Mas não estão, é claro: os comunistas existem na democracia porque esta não pode, sem se negar, excluí-los; mas, se alcançassem o Poder, dele obliterariam, tal como do resto da vida pública, todos os não-comunistas, para não falar do tratamento reservado aos que vissem com maus olhos o regime do céu na terra e tivessem a ideia peregrina de o manifestar.

Não há uma única excepção histórica a esta regra; nem, aliás, pode haver, por razões que não vou, por não ser esse o propósito deste post, referir.

PSD e CDS desvalorizaram a polémica, sublinhando que se trata de uma "mera exposição histórica". E deram-se ao trabalho de explicar que, quando o assunto foi discutido na Comissão Parlamentar de Educação, as luminárias da esquerda fanática não se manifestaram. Presume-se que, se o tivessem feito, a exposição teria ficado sem efeito, que não se pode contrariar os ferrabrases - eles ofendem-se, credo.

A verdade porém é que, com boa vontade, e sendo polémicas apenas três figuras (Carmona, Craveiro e Tomás) os respectivos nomes poderiam ser substituídos por Vasco Gonçalves, Eurico Corvacho e Rosa Coutinho - pouca gente notaria a diferença, que é tudo gente morta e não aparece na televisão. E, com tempo, poder-se-iam inclusive encomendar bustos novos representando fielmente estes três heróis, por uma questão de rigor.

Com este cuidado, creio poder afirmar-se que não haveria riscos sérios de as novas gerações toparem a falseta: a ponte 25 de Abril é, como toda a gente sabe, uma obra do regime democrático, embora não esteja incluída no grupo das PPPs.

publicado por José Meireles Graça às 15:19
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