Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

Europeíces, piedades, e conclusões levezinhas

Veio de Paris (na realidade o artigo apenas diz que era uma equipa da France Culture, mas deduzo que se é coisa de Cultura e de la France deve ser de Paris, tal como em Portugal estas coisas costumam ser de Lisboa) uma jornalista "jovem e competente" que entrevistou, entre outras pessoas, Teresa de Sousa, a propósito dos 40 anos do 25 de Abril.

 

Teresa de Sousa é uma conhecida colunista cujos escritos não costumo ler para além do primeiro parágrafo, pela mesmíssima razão que, se fosse gourmet, não leria a coluna de um especialista que todas as semanas falasse do mesmo prato - no caso de Teresa é a Europa, que nos é servida nas mil formas pelas quais se deve apresentar para que a possamos engolir com geral satisfação.

 

A jornalistazinha trazia, parece, uma ideia, que outros entrevistados teriam confirmado, de que "estávamos hoje pior do que no 25 de Abril, por causa da crise" - deve ter andado a falar com gente do PCP, ou a beber gins com gente do BE.

 

Teresa inteirou a moça da vulgata que toda a gente de representação reserva para estes entreactos, a saber que não senhor, estamos muito melhor, credo!, então e os índices de desenvolvimento, e o saneamento, e a taxa de mortalidade infantil, e a escolaridade e, sobretudo, o Serviço Nacional de Saúde...

 

E concluiu, triunfante: "A crise está a empobrecer-nos de uma maneira que nunca pensaríamos possível. O Governo não respeita nada nem ninguém, quando se trata de arrecadar. A classe média está a pagar a crise praticamente sozinha e a “compressão” dos seus rendimentos é brutal. Tudo isto é verdade, mas todas as crianças vão para a escola com sapatos".

 

Que a classe média está a pagar a crise não duvido; dos sapatos só tenho algumas dúvidas por imaginar que serão antes sapatilhas; e quanto às alternativas ao que este Governo está a fazer teria algumas coisas a dizer, que todavia receio fossem muito diferentes das europeíces e piedades de Teresa - mas não é o meu assunto agora.

 

Por trás destas considerações está, fatal, o seguinte raciocínio: a democracia trouxe-nos estas coisas boas; muitas não tínhamos, ou tínhamos em menor grau, nos longínquos tempos da ditadura; e logo é à democracia que devemos estes progressos.

 

Peço licença para achar que este discurso é uma falácia: comparar materialmente o agora com o dantes para daí deduzir superioridades e inferioridades de regimes não tem qualquer sentido porque todos os países progrediram imenso nestes quarenta anos, quer sob democracias quer sob ditaduras, e o nosso também não ficaria parado ainda que a Ditadura perdurasse; e sendo indiscutível que há mais democracias do que então havia, não é certo que a maior fatia do progresso material tenha vindo delas - a Ásia, o continente que mais cresceu, não é o que mais se recomenda pelas suas credencias democráticas. Aliás, a democrática Europa, pai e mãe do que melhor e pior a humanidade já produziu em termos de ideias políticas, está, relativa e inexoravelmente, a atrasar-se em relação ao resto do Mundo. Fosse eu apreciador de ideias simplistas, e cultivasse confusões entre correlações e causas, e diria que era por motivo da Democracia - mas não digo, nem penso.

 

O que eu penso é que para ser democrata não é preciso este massacre memorialista sobre os meninos do pé-descalço: Não houve até agora um só dia em que o nosso País progredisse mais do que o fez em qualquer dos dias da década de sessenta, apesar da chuva dos milhões com que desde 1986 nos aspergiram; nem as contas estão feitas sobre quanto nos vai custar em retrocesso e abrandamento aquela parte do progresso que foi feita a crédito; nem as pessoas que, como Teresa de Sousa e eu, têm mais de cinquenta anos, deveriam ter necessidade de esquecer, ou falsificar, os números do passado, para encher a boca com os imaginários triunfos do presente.

 

Teresa diz o que quer; eu também. E isso, que não conta para o PIB, é o que merecia ser comemorado no 40º aniversário. O resto não.

publicado por José Meireles Graça às 15:58
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

A verdade é sempre um problema. Temos os problemas...
Obrigado eu por o ler.
De facto, o orgulho em nós próprios, nas nossas es...
Os comunas ou marxistas são assim em todo o lado...
Pura corrupção xuxa-kostista

Arquivos

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio barreto

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter