Quarta-feira, 1 de Março de 2017

Fábula do escorpião e da rã

Sérgio Vasques, inquisidor-geral, lavrou em 2010 um despacho que constituiu a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos (hoje "Autoridade Tributária", uma designação ominosa) na obrigação de publicar informação estatística relativa às transferências financeiras feitas para paraísos fiscais, uma prática herética que nem por ser bastante vulgar deixa de ofender os sãos princípios de uma sociedade organizada sob o lema "tudo dentro do Estado socialista, nada fora do Estado socialista".

 

Os jornais estão recheados de familiares do Santo Ofício. E portanto esta iniciativa, mesmo não sendo do Grande Inquisidor, modernamente designado como Secretário de Estado dos Impostos, estava fadada a ter grande sucesso: do que se tratava não era de perseguir os marranos, que disso se ocupavam ordinariamente os santos frades no exercício do seu múnus - era de confirmar no espírito daqueles familiares e seus leitores a ideia de que há pobres porque há ricos; que a maneira de acabar com os primeiros é acabar com os segundos; que o fardo desta vida, para os deserdados, fica aliviado pelo expediente de só se poderem comparar com outros miseráveis; e que, salvo prova em contrário, e mesmo assim, não apenas um rico tem mais dificuldade em entrar no reino dos céus do que um camelo em passar pelo buraco de uma agulha, como merece ainda antes da duvidosa justiça do Além ser desde já imolado nesta.

 

Que o propósito era unicamente publicitário e doutrinário prova-o o facto de a estatística não discriminar a natureza das transacções, misturando no mesmo saco a empresa que quer pagar um bem ou serviço onde o credor lho exige e o cidadão que quer pôr ao abrigo da rapacidade do Estado, do risco de falência dos bancos ou do fim do Euro as suas poupanças; e incluindo, sem nomear, os suspeitos de tráfico de drogas, de armas ou de corrupção. Tudo com o evidente propósito de, enquanto não há meios, nem coragem, nem consenso na opinião pública, para acabar com as transferências para offshores, a ir moldando a este sincretismo interesseiro.

 

A frei Vasques sucedeu frei Azevedo; e foi este clérigo (um fanático conhecido pelas teses delirantes) que, provavelmente, municiou o actual governo com a denúncia da inexistência da tal lista de transferências no pelourinho do Público e dos outros lugares mal frequentados, a fim de a bomba poder ser usada quando a Situação se sentisse apertada.

 

Foi agora o caso - ao escândalo da CGD, que corria o risco de expor à opinião pública a lista de patifes, na sua maior parte de extracção socialista, que lideraram a Caixa, e o manto de silêncio hipócrita de comunistas e bloquistas, necessário para minarem com os seus o aparelho de Estado, era preciso opor uma merda qualquer. Fosse o que fosse, desde que contivesse os ingredientes certos. Uma lista com uns números ininteligíveis, originada por despacho abusivo de um funcionário menor, que deixou de ser publicada por decisão de um político que, em vez de dominicano, era jesuíta, serve, se bem trabalhada por uma comunicação social acéfala e esquerdista - como está a ser.

 

Bem jogado, Costa: da Caixa e dos cinco mil milhões que lá vamos enterrar já não se fala; e com jeito deve ser possível encontrar, no universo dos dez mil milhões de Euros em dúvida, uma coisinha qualquer que confirme que foi a falta de publicação de uma lista que a possibilitou. Cinco ou dez milhões já eram suficientes - quando os zeros são muitos as pessoas baralham tudo.

 

Resta dizer que há nisto tudo, em relação a Paulo Núncio, uma justiça poética. Que das duas explicações que deu para, sem clareza nem coragem, bloquear a publicação do papel, a segunda deve ser a verdadeira: não queria espantar a caça. Nunca explicou, nem sabe explicar, nem bem entenderia a pergunta se lha fizessem, de que forma se distingue de Paulo Macedo, ou do grotesco sucessor socialista que lá está agora, quando entre outras coisas passou um prazo ordinário de prescrição de ilícitos fiscais de quatro anos (tempo mais do que suficiente) para doze anos, precisamente no caso das transferências para offshores, além de toda uma impressionante série de malfeitorias com o mesmo denominador comum: o contribuinte é um infractor salvo se provar o contrário; a administração fiscal é inimputável e os erros e abusos são sempre consequência de falhas informáticas; um bom secretário de Estado aumenta a receita; e o bom cidadão fiscaliza o seu semelhante, tendo por prémio a miragem de um automóvel de luxo - pior ainda que o católico fervoroso que denunciava o seu vizinho cristão-novo para se lhe apropriar do quintal e das hortaliças viçosas.

 

De Pepedês e Cêdeesses que não se distinguem dos seus confrades do PS senão pelo conservadorismo em questões fracturantes pode dizer-se o mesmo que da fábula do escorpião e da rã: a rã só se pode queixar da sua própria estupidez.

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publicado por José Meireles Graça às 20:05
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