Quarta-feira, 5 de Março de 2014

Falta de vagar

Nunca fui, ai de mim, ao Museu Berardo. Sempre que entrevejo fotografias do que por lá se expõe, esmoreço. E a certeza, recolhida junto de quem me merece confiança, de que a maior parte do conteúdo é lixo - desanima.

 

Mas enfim, ao menos para falar com conhecimento de causa, uma exposição seria um bom pretexto para, de brinde, avaliar se o edifício em que o Museu de aloja tem, por dentro, aquela fealdade canhestra que o distingue por fora.

 

Por acaso, tropecei na notícia desta exposição. O nome, "da cauda à cabeça", não diz nada, ou melhor, seria talvez mais indicado para uma exposição do Museu de História Natural, mas o que é um nome, hem? - se bem explicado é capaz de fazer todo o sentido.

 

Também por isso, li com atenção o panegírico da obra que faz o Director Artístico Pedro Lapa: ver não é a mesma coisa que saber ver e a obra de arte pode ganhar com a mediação de um intérprete.

 

Que diz então o inteligente? Diz isto: "Tal como na maioria dos projetos de Carla Filipe, em da cauda à cabeça os objetos do mundo, relacionados entre si, fora das suas funções instrumentais, traçam um feixe de relações suscetível de definir um amplo conjunto de narrativas que complexificam a sua aparente simplicidade ou mesmo insignificância. Eles tornam-se um suplemento material por entre as histórias ausentes que deles partem e para eles reenviam. Como tal, revelam-se o espaço de consignação da memória que o trabalho de Carla Filipe acorda e reinventa".

 

Sim, Pedrinho, consignação da memória? Ó pá, isso também vale para uma colecção de sêlos; e essa história do feixe de relações que definem um amplo conjunto de narrativas remete mais, por exemplo, para a descrição, feita por um psicólogo, de um marido aldrabão que gosta de saltar a cerca.

 

A notícia vem com uma sequência de fotografias. E o que as fotografias mostram, no inspirado dizer do crítico, são objectos "que se vão articulando uns com os outros, a par de resíduos autobiográficos, de forma a criar um arquivo fantasmagórico, que destitui qualquer pretensão de abordagem científica para revelar um conhecimento sensível de uma realidade histórica".

 

Ou seja, ainda não é desta que vou a Lisboa: para ver ferro-velho embrulhado em banha-da-cobra realmente não tenho vagar.

publicado por José Meireles Graça às 00:52
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