Terça-feira, 3 de Novembro de 2015

Febre de todos os dias à noite

Nos tempos longínquos em que começou o PREC II, isto é, há três semanas, defendi a tese do governo-vacina, admitindo a inevitabilidade de um acordo revolucionário entre o operário fanático, a actriz cheia de si e o intelectual treteiro - não foi assim que os descrevi mas aquele trio pode ser apresentado de muitas maneiras, nenhuma lisonjeira.

 

Depois, Cavaco, irado, falou, e mudei de opinião, admitindo um governo de gestão até que possa haver eleições. E Cavaco voltou a falar, na posse do governo, mas uma oitava abaixo - e eu não disse nada, senão para os meus botões: mau, pá, em que é que ficamos?

 

Entretanto, Jerónimo deu uma entrevista notável à SIC Notícias, nela se percebendo que só a imensa lata de Costa lhe permitiu ir ao Presidente da República falar num acordo: não há acordo nenhum, se houver ou o preço é tão alto que os credores imediatamente darão sinal de si, ou é tão baixo que os comunistas nunca aprovarão o orçamento; o PCP não está pelos ajustes de deixar de ser...o PCP; e o BE não conta, para além dos delírios da patetinha que hoje o povo de esquerda, e as televisões, aplaudem, quando se chega ao proscénio no desempenho do papel de Pasionaria que julga ser o seu.

 

Entretanto, de vários lados fui vendo enunciar os custos assustadores do governo-vacina, consoante a quantidade de cedências que Costa faz ou não faz aos vermelhos. E vi, sem razão, escavacar as virtudes da vacina, sob o pretexto, precisamente, de que o não é: se o eleitorado não aprendeu nada com as três falências anteriores, porque aprenderia alguma coisa com a quarta?

 

Sucede que as duas primeiras falências - 77 e 83 - são explicáveis à luz das sequelas do PREC, cujas sombras, hoje ainda não inteiramente dissipadas, eram então muito presentes. E da segunda o país recuperou rapidamente, ajudado primeiro pela desvalorização da moeda quando ainda não havia nem globalização nem queda do muro de Berlim, nem países de leste a concorrer connosco, e depois pela cornucópia dos milhões que a adesão à CEE, em 1986, proporcionou. E se o eleitorado sempre deu o benefício da sua confiança ao PS, enviando-o para a oposição durante menos tempo do que o que coube à direita, convirá lembrar que o PS é portador da aura de ter sido, em 1975, o líder do anticomunismo e depois o campeão da Europa - precisamente o capital que Costa agora desbarata.

 

Quanto à terceira falência, a de 2011, o PS perdeu a maioria relativa e 23 deputados naquele ano. E, ao cabo de quatro anos de aplicação de um programa de ajustamento que a chamada direita foi forçada a seguir, conseguiu não ganhar as eleições, caso único para situações semelhantes.

 

A pedagogia da realidade, portanto, funciona. Não tanto como se desejaria, mas não tão pouco que se possa dizer que o eleitorado bate sempre com a mesma cabeça na mesma parede.

 

Hoje por hoje, tudo está nas mãos de Cavaco - o homem vai escolher o nosso destino próximo. E não fosse o caso de o seu provável sucessor, dada a panóplia dos candidatos, ser um irremediável saco de vento palavroso, tão incapaz de saber o que fazer nesta encruzilhada como de decidir se é ou não é a favor da despenalização do abortamento, recomendaria a Cavaco, em caso de aprovação de uma moção de rejeição do programa de governo, que se demitisse, por se recusar a nomear o governo vermelho do IV resgate. Com isso, forçaria a antecipação das presidenciais e transformá-las-ia num referendo ao caminho a seguir, acabando de vez com as dúvidas sobre o que queria realmente o eleitorado do PS.

 

Hipótese louca, claro: que nem Cavaco tem cojones para se demitir, nem, do único candidato teoricamente aceitável, vêm ideias claras, nem os dados estão todos lançados: Assis ainda pode, quem sabe, infundir algum juízo na cabeça de um número suficiente de deputados.

 

Será assim, assado, ou doutra maneira. Que no PREC original, ainda me lembro, a gente pensava uma coisa de manhã, outra à tarde e à noite não sabia o que lhe reservava o dia seguinte.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 12:28
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Exigem ser os donos de Portugal, e fazem de tudo p...
A Sra. Bastonária esqueceu-se de uma coisa. Não só...
Acho que a Sra. Bastonária terá sido porventura po...
Nem mais, os minhotos com razão.Ppq
Nos hospitais portugueses há 50 anos havia mulhere...

Arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter