Quarta-feira, 27 de Maio de 2015

Frutos vermelhos

Ao sair do Parque Industrial onde trabalho topei dois tipos junto de um saco enorme, transparente e cheio até acima, debaixo de um toldo portátil, daqueles de praia, com um tosco papel colado, onde se rabiscara a traço grosso: Cereja de Resende - 2 Euros Kg.

 

Não parei. Mas algo no vermelho escuro das cerejas me fez dar a volta onde esteve uma rotunda e está agora uma complicação de desenhos no chão, ofendendo um traço contínuo e desrespeitando um stop - poucas coisas me dão mais satisfação que estes pequenos comportamentos antissociais, quando não há perigo e a complicação da sinalização resulta da masturbação controleira de um edil qualquer com a mania de que sabe o que está a fazer.

 

Já tinha chegado entretanto um bando de operárias - era hora do almoço - e aguardei a minha vez, enquanto as desbocadas provocavam o homem com piadas brejeiras, misturadas com imprecações contra a fortuna que estaria ali fazendo, impingindo-lhes a peso de ouro umas cerejas que lhe deviam ter custado o preço da chuva. Há poucas coisas mais brejeiras do que um grupo de operárias na alegria da hora do comer e do lazer, e só um imprudente se atreveria a tentar meter-se na conversa, para a qual aliás o homem estava mais do que qualificado. Eu e o filho - presumo que o fosse - mantínhamos pois a boca fechada, ele um tanto assarapantado, eu a fingir-me meio distraído, elas a carregar no discurso, a ver se o coninhas - devo ter aspecto, pelo menos, de guarda-livros, senão de patrão - também aderia ao conversê.

 

O homem, enquanto retirava mãos-cheias de cerejas para os sucessivos pequenos sacos de plástico que o filho ia pondo na balança, e aconselhava que não esquecessem de dar as cerejas aos maridos e namorados, a fim de lhes reforçar a força que a ele sobrava, vigiava com um olhar inquieto as cercanias.

 

Não tinha a carrinha por perto; o saco podia-o transportar sozinho, e o filho a balança e o toldo; e imagino que lhe faltava a licença para a venda ambulante, mais o que quer que seja que se exige, e que deve ser muito, a quem vai buscar cerejas onde as há, para as vir vender sob a torreira do sol a dois euros o quilo.

 

Ninguém lhe pediu factura, claro; e as cerejas revelaram-se óptimas, com um preço - fui informado de regresso a penates - em conta.

 

De brinde, além de sumarentas, continham uma moral. E essa era de que é um mundo estranho, este nosso, em que para ganhar a vida se exige licença e se pagam taxas, e se corre o risco de pagar coimas terroristas, enquanto, a 380 km de distância, os maduros dos transportes públicos de Lisboa, com emprego certo, fazem greves porque julgam que têm direito a que este pobre diabo, e os outros contribuintes, lhes continuem a cobrir os prejuízos das empresas em que quase nunca trabalham um mês seguido.

publicado por José Meireles Graça às 12:12
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3 comentários:
De Carlos Conde a 27 de Maio de 2015 às 23:39
Excelente história com um final tão imprevisível quanto a reflexão arrasadora a concluir.

Os actuais sábios partidários consideram aquela forma de sobrevivência horrível, além de absolutamente ilegal.

De ccz1 a 28 de Maio de 2015 às 20:46
Daqui a 100 anos, passada a onda demográfica da geração do Maio de 68, (a geração mais mimada da história, a que teve tudo, primeiro dos pais e, depois, do estadinho), as pessoas olharão para estes anos e estas práticas anti-empreendedorismo com o mesmo horror com que olhamos para as ditaduras europeias da primeira metade do século XX.
De José Meireles Graça a 28 de Maio de 2015 às 22:35
Infelizmente, estaremos ambos mortos, Carlos...

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