Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016

Gente de senso

Gente de senso, quando confrontada com escolhas sobre as quais o PCP e o Bloco tenham uma posição firme a apoiar um determinado caminho - vai por outro.

 

A razão é simples: o valor supremo para esquerdistas daquelas duas tinetas é o da igualdade material entre os cidadãos e esta só se pode obter em detrimento da liberdade.

 

De facto, ninguém entrega os seus bens e os seus ganhos pacífica e voluntariamente ao Estado a não ser que ache que está a fazer um bom negócio: em defesa da igualdade de todos perante a Lei, assegurada pelas polícias e os tribunais, em assistência na doença e na velhice, em construção e conservação de estradas, em gratuitidade de ensino mínimo para todos, na existência de forças armadas sem as quais a própria ideia de país do qual se seja nacional deixa de fazer sentido - e um longo etc.

 

Todos, porém, querem uma vida melhor, e esta só é possível com progresso científico, tecnológico e material que se traduzam em empregos. Sucede que as pessoas comuns intuem que esses avanços resultam sobretudo de esforços de indivíduos que se norteiam por ambição. Ora, a ambição não consiste normalmente em querer ser igual aos outros, consiste em querer ser diferente - saber mais, ganhar mais, viver melhor, ter mais poder, ser mais ouvido, mais admirado, mais influente...

 

Daí que, ultrapassado que seja o limiar da tolerância em relação à punção do Estado, só seja possível prosseguir na senda do igualitarismo com doses crescentes de violência; e daí também que as sociedades socialistas sejam, além de inerentemente violentas, pobres - o homem comum é saudavelmente egoísta, não uma Carmelita Descalça, e esforça-se por si e a sua família, não pela comunidade.

 

Estas superficialidades (há bibliotecas inteiras a ocupar-se destes assuntos, e uma vida não chegaria para ler tudo o que, a favor e contra, já se escreveu sobre socialismo e comunismo) servem-me para me desculpar por concordar, por uma vez, com a comunistada do BE e o PCP a apostarem na estatização.

 

Estatizar é o que aquelas almas defendem sempre, et pour cause. Mas, desta vez, dá-se o caso de a escolha não ser entre a propriedade pública e a privada, mas entre a propriedade nacional de uma instituição portuguesa e a propriedade estrangeira, provavelmente espanhola, da mesma instituição.

 

Fosse uma fábrica de pentes ou painéis solares e pouco se me daria se o proprietário fosse espanhol, ou chinês, ou da República de S. Marino; e não houvesse o risco de o sector bancário, todo ele, ficar em mãos estrangeiras, e veria com bons olhos que um banco novo, de capitais estrangeiros, se juntasse aos demais no nosso exíguo mercado.

 

Vítor Bento diz que não há dinheiro português privado para ficar com os restos do BES. Claro que não: os capitalistas de primeira linha foram decapitados no 11 de Março de 1975; o restauro dos antigos grupos foi feito com empresas meio destruídas e, em parte, a crédito - o próprio BES foi um exemplo; os novos grandes capitalistas nasceram sobretudo no ramo das mercearias e pouco mais; os muitos casos de sucesso de empresários não chegaram ainda para fazer grandes argentários ou grupos, nem chegarão - a tributação predatória, a gestão esquerdista do País e a globalização encarregam-se de cortar as asas à acumulação de capital português.

 

E dá-se o caso de a afirmação de que "as dificuldades com a decisão se inscrevem na estratégia de criar grandes grupos europeus, o que passa por dar o domínio do mercado bancário da Península Ibérica a entidades espanholas" (opinião que não percebi se é a do próprio Vítor Bento se a do autor do artigo) casa bem com a pulsão burocrática e centralista de Bruxelas e o que se passou recentemente com o BANIF.

 

A pergunta, então, é esta: é melhor para nós dependermos exclusivamente de grandes bancos estrangeiros, mal geridos sob a tutela de gente que não conhecemos (há uma perversidade inerente ao sistema financeiro internacional, ainda não resolvida, que faz com que nem se obrigue a que os bancos sejam suficientemente pequenos para as falências não terem efeitos sistémicos, nem se garanta que sejam geridos por gente que não seja com frequência gananciosa e inepta) ou termos alguns bancos nacionais geridos por gente da confiança política do poder do dia, com as distorções que isso implica, pagando o preço de más alocações de recursos e suportando patetas da Academia metidos a banqueiros quando nem bancários sabem ser - pecha de que Bento não sofre, mas afecta muitos dos seus colegas?

 

Por mim, escolho os meus. Que é precisamente o que todos os estrangeiros fazem.

 

publicado por José Meireles Graça às 15:35
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1 comentário:
De Carlos Conde a 22 de Fevereiro de 2016 às 20:41
Indo de encontro à sua ideia avanço já com a sugestão para o nome da próxima entidade bancária: Nova CGD!

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