Sábado, 2 de Julho de 2016

Give me three good reasons why CGD should be a government owned bank

Parafraseando a Rainha Isabel, "Give me three good reasons why CGD should be a government owned bank".

Eu consigo, de memória, enumerar uma série de razões para manter a Caixa Geral dos Depósitos como um banco público. Mas serão boas razões? Vamoláver.

  • "...trata-se de uma grande instituição que todos acham que deve continuar uma instituição portuguesa, pública e forte...", como afirmou o presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

A razão seria inegavelmente boa, em democracia, se fosse verdadeira. Se todos querem, deve ser assim. Só que não é verdadeira. Há pelo menos um português que fica feliz da vida se a CGD continuar a ser um banco forte, admitindo que actualmente é forte, o que pode estar longe de estar provado, lhe é mais ou menos indiferente que seja portuguesa ou não, mas admitamos que no contexto da selecção a bater-se pelo Euro 2016 o brio nacionalista até o sensibiliza para a preferir portuguesa, mais por afecto do que por razão, e prefere declaradamente que não continue a ser uma instituição pública. Eu. E, como eu, tenho a impressão que há mais. Em resumo, não são todos.

  • "...um país sem um banco público forte não é um país...", como afirmou o senador socialista Jorge Coelho.

Esta razão também parece boa, puxa pelo brio dos portugueses, pela auto-estima que tanta falta lhes dizem que lhes faz. Mas, infelizmente, é falsa. Há evidência empírica que sustenta que há países que são mesmo "países" que não têm bancos públicos, como por exemplo os Estados Unidos da América. Para não falar na evidência que todos os países "de opereta" os têm, pelo que não é a existência de um banco público que nos garante termos um "país", nem é garantido que hoje em dia o tenhamos, apesar do banco público.

  • "...entre 1998 e 2008, a Caixa Geral de Depósitos pagou 2.7 mil milhões em dividendos ao Estado. Todos os outros bancos pagaram zero...", como disse o deputado socialista João Galamba.

Está bem visto. Os contribuintes são chamados a financiar, em menor (BES) ou maior (BPN, Banif) grau, o resgate de bancos cuja falência poderia implicar o risco de desencadear uma hecatombe na economia nacional, e, do mal o menos, antes gastem o dinheiro do resgate em bancos públicos que, quando o negócio lhes corre bem, pagam dividendos ao Estado. Só que, azar dos azares, o balanço entre os dividendos pagos pela CGD ao Estado e o dinheiro que a CGD recebeu ou receberá a breve prazo através de injecções de capital ou pela alienação de activos desde o início do século XXI é deficitário em mais de um milhão de euros por dia. E já lá vão muitos dias.

  • "Um banco público forte pode intruduzir no mercado alguma regulação que contrarie eventuais abusos da banca comercial sobre os consumidores", como digo eu, que também quero ajudar a manter a CGD pública.

A banca é uma indústria altamente concentrada com um número muito reduzido de instituições de grande dimensão e poder negocial, que servem milhões de pequenos clientes sem nenhum poder negocial, condição que, qualquer almanaque de micro-economia esclarece, propicia a formação de cartéis no seio dos quais as instituições prescindem de concorrer entre si à custa da exploração dos consumidores (lá está a minha faceta de esquerda) mas também do crescimento económico (e aqui, a minha faceta neoliberal), por exemplo, concertando preços. Claro que a CGD é muito útil para quebrar eventuais concertações entre os bancos para, por exemplo, cobrarem comissões aos pequenos depositantes. Azar dos azares, uma prospecção de mercado recente para abrir uma conta para um pequeno condomínio revelou-me que a CGD, não apenas não é o banco que impõe aos pequenos depositantes tarifas mais baixas, como é exactamente o que lhes impõe tarifas mais altas. Lá se vai a minha ambição de banqueiro de esquerda...

  • "...importância da CGD como instituição de referência no sistema financeiro, e parceiro de desenvolvimento na economia...", como diz o ministro das Finanças Mário Centeno.

Esta razão parece apelativa, quem não quer ter um parceiro para ajudar o governo no desenvolvimento da economia? Eu não quero. Esta é, infelizmente, é a melhor razão para privatizar a CGD, não apenas para a defesa dos contribuintes, mas para a defesa da instituição, que foi sangrada ao longo da história por sucessivos governos que a obrigaram a apoiar negócios estratégicos e emblemáticos, mas ruinosos, sendo que, curiosamente, todos os negócios ruinosos que vêm à memória de quem puxa por ela parecem ter sido da iniciativa de governos socialistas, os que têm, por motivos ideológicos, mais apetência por intervir na economia, e intervieram e continuam a intervir.

Chegado aqui, com cinco razões para manter a CGD na esfera pública enumeradas, mas sem ter ainda descoberto uma única que fosse boa, deixo o meu apelo aos leitores para que me ajudem a encontrar: dêem-me três boas razões para manter a CGD como um banco público? Duas, ou mesmo uma, já seria uma boa ajuda...

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:56
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1 comentário:
De cristof a 5 de Julho de 2016 às 01:14
Excelente

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