Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Globalização e Church's

2016-11-24 Churchs.jpg

Pode-se ser de esquerda e ser-se contra a globalização?

Pode-se, e é-se.

Porquê?

A esquerda mais pavloviana, movida pelo ódio ao capital, e sempre atenta às conspirações obscuras que fazem mover o mundo, aponta à globalização o vício de fazer engordar os lucros das empresas, a sua razão de existir para lhes permitir produzir em países onde pode ganhar fortunas a explorar mão-de-obra barata e sem direitos laborais nem sociais. Em Portugal é representada pelos bloquistas e pelos socialistas modernaços, os que actualmente comandam e representam o PS para efeitos de relações públicas, gente que sabe que as crises financeiras são causadas, não por governos perdulários e demagógicos entregarem os seus países à dependência da dívida para comprarem o voto dos eleitores, como pensam os ingénuos, mas por ataques especulativos ao euro (eu continuo a não perceber o que é um ataque especulativo ao euro? mas até me ficava mal não mencionar esta teoria), por castigos da UE e da senhora Merkel e das agências de rating à sua irreverência e insubmissão às imposições do capitalismo neoliberal, e mesmo da segunda espécie de humanos de crânio oblongo e inteligência superior que domina o Banco Mundial e pretende dominar o mundo através da finança e da dívida. E, claro, a globalização foi criada para permitir à empresas impedidas pelas lutas dos trabalhadores e pelos avanços sociais de explorarem ainda mais selvaticamente os trabalhadores do primeiro mundo, explorarem os do terceiro.

A esquerda mais populista, e nisto a esquerda populista é tão diferente da direita populista quando um ângulo de 180º é diferente de um de -180º, movida pelo egoísmo da defesa dos interesses dos seus representados, aponta-lhe a ameaça aos local jobs que a concorrência da produção baseada em mão-de-obra barata e sem direitos potencia e a deslocalização concretiza. Em Portugal é representada essencialmente pelos comunistas e pelas organizações sindicais que dominam, que pensam que numa economia fechada como as sociedades socialistas que eles criaram, e através da planificação da economia pelo socialismo científico, poderiam ser eles a ditar os salários, os direitos sociais, o pleno emprego, e os preços acessíveis, e até a felicidade suprema socialista.

A esquerda da superioridade moral, movida pelo altruismo e pela ambição da igualdade universal, indigna-se com a falta de direitos laborais e sociais dos trabalhadores selvaticamente explorados no terceiro mundo pelas empresas globais, que defende que deveriam ter salários e direitos ao nível dos dos trabalhadores do primeiro mundo, e nem estes conseguem ver assegurados por causa das agressões do neoliberalismo. Em Portugal é representada pelas franjas mais generosas e articuladas dos bloquistas e socialistas que ultrapassaram o nível de ambicionarem o socialismo para satisfazer as suas próprias necessidades, para o de satisfazerem as necessidades de toda a humanidade, em nome de quem falam e de quem são, por serem movidos pelo altruísmo e pela defesa dos interesses dela, legítimos representantes. E representam naturalmente os povos do terceiro mundo explorados pela globalização, que querem com direitos iguais aos dos do primeiro.

Quer sejam movidos pelo ódio ao capital, pelo egoísmo da defesa dos seus eleitores, ou pelo altruísmo de ambicionar direitos para os outros, têm todos em comum o facto de serem anti-liberais, tendo até arranjado para o liberalismo a designação odiosa de neoliberalismo que lhes permite odiá-lo sem se chegarem a questionar se o que odeiam é a liberdade de as pessoas se organizarem como entendem, e não como eles entendem, para levarem a cabo as actividades de produção e de trocas comerciais que constituem a economia.

E terão mesmo boas razões para ser contra a globalização?

Os pavlovianos têm certamente razão. Não vale a pena demover tolos das suas ideias fixas.

Os populistas teriam razão se, à falta de oportunidades de produção a custos reduzidos através da deslocalização para países de mão-de-obra mais barata, as empresas investissem localmente para assegurar os mesmos níveis de produção com mão-de-obra doméstica. Mas é uma ilusão. A custos de produção mais altos, exigindo preços de venda mais altos, a procura dos seus produtos seria mais baixa, e os níveis de produção escoável também. O fecho da economia não consegue reabrir as fábricas fechadas, nem as deslocalizadas, pela falta de competitividade de custos da produção local. Teriam, mas não têm

Os da superioridade moral são os mais cegos. Movidos pelas suas boas intenções de ambicionar um mundo mais justo e igual, um mundo bonito, e determinados pela superioridade moral que elas detém sobre visões em contrário das suas, não se detém a reflectir sobre as alternativas que o mundo real oferece às vítimas da exploração desenfreada da globalização. E o ponto de partida das vítimas da globalização são sociedades de economia incipiente e de miséria absoluta para a esmagadora maioria das populações, em que o bem-estar não se mede pelo poder de compra, pelo número de telemóveis ou automóveis por mil habitantes, mas pela incerteza de ingerir regularmente alimentos suficientes para permanecer vivo. O ponto da situação são milhões e milhões de pessoas a trabalhar em condições de higiene e segurança deploráveis, sujeitas a horários de trabalho deploráveis, a receber salários deploráveis, e com direitos laborais e sociais deploráveis, deploráveis à nossa escala, um mundo muito feio, mas mais acima de linha de água do risco de morrer de fome do que alguma vez tinham estado antes na história, retiradas que foram da miséria extrema mais de mil milhões de pessoas em poucos anos. E o ponto de chegada, fossem as suas ambições ou exigências atendidas, de lhes oferecer salários e direitos laborais e sociais equivalentes aos do primeiro mundo, e custos de produção, acrescidos dos da logística para levar a produção até aos locais de consumo, seria o encerramento das fábricas onde são explorados por se tornar economicamente irracional deslocalizar produção sem ganho de custos, e o regresso ao ponto de partida, a devolução de mil milhões de pessoas para abaixo da linha de água da fome. De boas intenções está o inferno cheio.

2016-00-25 Our World Data - global income distribu

Os detratores da globalização têm ainda em comum, pois, o facto de se estarem completamente nas tintas para o destino dos milhares de milhões de seres humanos que as empresas globais vão, sem nenhuma boa intenção que não seja maximizar os seus lucros, explorar ao terceiro mundo em troca de salários, horários, direitos e condições de trabalho, que, no primeiro, seriam consideradas da mais absoluta indignidade, mas que são a única alternativa que alguma vez lhes foi oferecida a tentarem sobreviver sem grande probabilidade de sucesso na miséria ainda mais absoluta.

Para os pobres do terceiro mundo, e para os do primeiro. Se os produtos baratos produzidos no terceiro mundo fossem impedidos de entrar no mercado ou tornados artificialmente caros por tarifas alfandegárias, o custo de vida aumentaria, e o poder de compra diminuiria. Se a indústria de calçado fosse suficientemente regulada e protegida da concorrência para conseguir que só se pudessem vender sapatos ser feitos à mão em países do primeiro mundo, o número de trabalhadores a fabricar sapatos no primeiro mundo seria certamente muito superior ao actual. Mas esses sapatos teriam que custar o que já custam actualmente, e uns Church's custam uma boa nota de 500 euros se forem bem regateados. Quem dispõe de 500 euros para comprar sapatos andaria calçado, tal como já anda. Quem não tem, à falta de sapatos a 20 ou 30 euros na loja do chinês, teria que se encher de paciência e passar a andar descalço.

 

Nota da Redacção:

Em boa hora inspirado por um artigo já com 20 anos do Paul Krugman sobre a globalização, In Praise of Cheap Labor - Bad jobs at bad wages are better than no jobs at all, em boa hora relembrado pelo Vítor Cunha no Blasfémias, que o Paul Krugman, nos intervalos entre pregar wishful thinking anti-austeritário, é capaz de pensar e resumir em poucas palavras a solução de problemas aparentemente complexos como a resolução da crise económica nos países da periferia do euro sem a necessidade, e os riscos, de sairem do euro, o que não é pouco.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:38
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1 comentário:
De Sergio a 26 de Novembro de 2016 às 09:22
Ate porque na existe na maior parte dos casos enorme desconhecimento da realidade actual da manuctura. A indústria tem vindo a substituir homens por máquinas, e a tendência vai continuar. Se ainda há muitas empresas lá fora que usam mão obra intensiva é porque os custos ainda compensam. Esses homens seriam substituído por máquinas! Isso tem é verdade para Portugal, em relação ao salário mínimo por exemplo, cujo aumento pode levar, quer os políticos digam o contrário ou não, a redução do emprego.

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