Domingo, 11 de Dezembro de 2016

Grandes combatentes pela Liberdade(!?): José Saramago

pilar e antonio costa fjs.jpg

O primeiro-ministro António Costa, que está sempre com um olho no burro e outro no cigano, disse a propósito da doação do espólio do escritor José Saramago à Biblioteca Nacional:

  • "José Saramago pertenceu a uma geração a quem a escrita foi muitas vezes reprimida, a quem o Estado quis calar e censurar, libertar o espólio, doando-o à Biblioteca Nacional, é uma última homenagem à liberdade".

A primeira parte da frase, "José Saramago pertenceu a uma geração a quem a escrita foi muitas vezes reprimida, a quem o Estado quis calar e censurar...", é inteiramente verdade. Tal como Benito Mussolini pertenceu a uma geração de antifascistas, os que tinham a idade dele e que ele mandava regularmente perseguir, sovar, prender, torturar e matar, José Saramago pertenceu a uma geração de escritores censurada e, nalguns casos, perseguida pelo regime salazarista. O que não foi o caso dele, no entanto, que nunca teve obras censuradas. Mesmo na autobiografia publicada no site da sua fundação verifica-se uma única ocorrência da palavra censura, não para qualificar uma recusa do regime salazarista em publicar de uma obra dele ou a sujeição do seu conteúdo a alterações forçadas para permitir a publicação, mas a opção do governo Cavaco Silva de não a indicar para um prémio literário internacional, o que terá atentado mais contra a vaidade do que contra a liberdade do escritor.

Sublinhar esta pertença deste escritor a esta geração de escritores censurados é, por assim dizer, uma boleia gratuita, ou free ride, como dizem os ingleses. Hábil e até compreensível num político manhoso que sempre soube arregimentar apoiantes e pagar-lhes bem, em honras, prebendas ou em contado, mas verdadeira, em boa verdade.

A última parte da frase, "...é uma última homenagem à liberdade", é que já é mais discutível. Misturar na mesma frase uma das mais nobres palavras, liberdade, com o nome de um facínora esbirro do estalinismo que, quando lhe foi dado algum poder e teve a sua oportunidade de mostrar a fibra de que era feito, durante a tentativa de tomada do poder pela força pelo partido onde militava, que falhou mas esteve muito perto de ter sucesso, censurou, saneou e violentou jornalistas, o que não apenas não define um defensor da liberdade, mas comprova mesmo a acção de um carrasco da liberdade, é uma disfuncionalidade cognitiva.

É que, se houve algum contributo do José Saramago para a liberdade em Portugal, foi justamente o de, durante o PREC, ter exemplificado como poucos outros ao que vinha exactamente o PCP, o que tinha na manga para oferecer aos portugueses nos domínios da liberdade e da democracia, e, exactamente por isso, ter desempenhado um papel preponderante de estímulo e encorajamento à contra-revolução com que, nos últimos meses do PREC, e depois de se terem contado os votos das primeiras eleições e percebido a real representatividade das diversas forças políticas que era diametralmente diferente da aparente na rua e nos jornais, o país retribuiu aos comunistas com alguma violência o amor que eles dedicavam à sua liberdade.

Se a disfuncionalidade cognitiva do António Costa é genuína, se ele acredita mesmo nela, ou simulada, se ele não acredita mas recorre a ela para recompensar os bons serviços de quem o apoiou em combates eleitorais, está por se saber? A segunda hipótese parece mais plausível, dado o comprovado sentido ético do primeiro ministro e a sua velha e vasta tradição de premiar os seus apoiantes políticos, e a primeira chega a parecer aberrante. Mas só surpreende quem nunca viu o modo como ele lida com os jornalistas, em público ou em privado. O modelo de gestão Saramago é bem capaz de corresponder ao seu sentido de liberdade de opinião e de imprensa.

Cabe-nos a nós permanecermos atentos e deixarmos claro que a liberdade não precisa de homenagens de facínoras esbirros de ditaduras, e muito menos de homenagens a eles.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:25
link do post | comentar
2 comentários:
De José Domingos a 11 de Dezembro de 2016 às 23:51
Estranho, lembrei-me do diário de noticias, onde num tempo, os Jornalistas, eram saneados e censurados, por outros comissários políticos, não era isto, por outros jornalixos.
De Anónimo a 12 de Dezembro de 2016 às 10:57
O Costa é um cripotocomuna, não há volta a dar.

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Caríssimos, compreendo a V. perplexidade e indigna...
não há p+pachorra para ler um post com tanto palav...
Creio que não tem noção da complexidade da investi...
Ao contrário do que pensava o prof. Cavaco, num di...
É (muito) raro ter alguma coisa a apontar-lhe no q...

Arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

universidade de verão

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter