Quarta-feira, 29 de Março de 2017

Grilo falante

Não fazia ideia de que ainda houvesse mercado de ganhões. Mas tropecei nesta entrevista e, como a notícia era curta, calhou lê-la até ao fim.

 

Em princípio, manda a prudência que não se leiam entrevistas de ex-ministros da Educação: há décadas que o lugar é cativo de lunáticos, intelectuais de pacotilha e doutorandos em ciências de tretas pedagógicas. Com excepções, claro: Manuela Ferreira Leite não pertencia a nenhuma destas categorias, mas à de encarregada da intendência; nunca ninguém soube em que escola de pensamento encaixar Guilherme de Oliveira Martins, por o homem levitar intelectualmente no vácuo; e o actual encarregado da pasta não se ocupa realmente de questões de educação mas de assuntos sindicais.

 

Marçal Grilo é geralmente respeitado por ter ideias próprias, ou ao menos compradas a autores menos conhecidos, uma raridade; e universalmente se lhe reconhece um entranhado amor à formação científica, para a qual deu um grande impulso sob a égide de António Guterres, o famoso estadista que vivia consumido por uma ardente paixão pela educação.

 

O esforço dos dois não foi esquecido. E é hoje consensual que para o país sair da crise, ou progredir, ou apanhar o pelotão da frente da União Europeia, como dizia o saudoso Cavaco, ou ser um país a sério, como diz com frequência o ex-ministro e actual comentador Coelho, há que investir na educação.

 

Tem-se investido na educação, graças a Deus e a estas luminárias. E com excelentes resultados - tanto que a geração actual é pacificamente descrita pel'A Bola, o Bloco de Esquerda e o comentariado como a geração mais bem preparada de sempre.

 

O progresso é que, desgraçadamente, não se tem materializado, a tal ponto que há dez anos que a dívida vai a galope, por contraponto às três décadas anteriores, em que se limitava a trotar.

 

Isto, em alguns espíritos cépticos, faz nascer a dúvida: se a geração mais bem preparada de sempre é contemporânea da maior dívida de sempre, e dos crescimentos mais anémicos de há muito, talvez a educação, só por si, não garanta nada. E a constatação de que, geralmente, nas sociedades que muito progridem a educação progrida também, poderia ter como explicação que o progresso exige educação, mas não é causado por ela.

 

Ideia perturbadora. Porque, se for assim, o exangue contribuinte português sustenta um ensino pletórico para dar formação a gente que na realidade vai alimentar outras economias. E isto sem quaisquer garantias de retorno, porque o emigrante português actual, ao contrário dos seus pais e avós, não manda dinheiro para a família, nem sonha construir uma maison no terrunho. Pior: dantes exportávamos os excedentes de mão-de-obra não qualificada que nada tinham custado à comunidade a produzir, e era portanto tudo lucro; e agora mandamos enfermeiros para Inglaterra, arquitectos para o Dubai e engenheiros para a Alemanha, e eles, que já não vivem em bidonvilles, descobrem - ingratos - que Portugal é bom, apenas, para vir de férias fora da época da neve.

 

Apesar disto, e do país falido e exangue, Marçal e todos os outros grilos avisam para "risco de desinvestimento no ensino". E insistem que devemos gastar, gastar cada vez mais, porque o crescimento até agora não veio, mas virá com os netos. Os netos de quem? Ora, é bom de ver: da tal geração, a mesma que, devido a contrariedades sobre as quais Grilo não cogita, não quer ter filhos, ou tem-nos lá fora.

 

Daí que o lamento "formamos gente de topo e os alemães levam aos 30 engenheiros" seja uma involuntária autocrítica: faço parte de uma geração de imbecis que confunde correlações com causalidades; não tenho ideia nenhuma que preste sobre o que realmente trava o desenvolvimento do país; os alemães só não levarão, em vez de 30, trezentos engenheiros, porque não haverá; entretanto, faço feiras de mão-de-obra para exportar carne tenra, e sobre elas dou entrevistas a beócios que me bebem o asneirol como se fosse néctar.

publicado por José Meireles Graça às 21:16
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4 comentários:
De Miguel Cardoso a 29 de Março de 2017 às 22:52
E quando pela primeira vez desde 2000 demos um valente pulo no ranking de Pisa em 2015 e tivemos bons resultados nos TIMMS a matemática, as luminárias que nos governam resolveram dizer-nos que esses resultados nada tinham que ver com as alterações curriculares, nomeadamente o reforço a matemática e vá de rasgar tudo. Num país a precisar de engenheiros como de pão para a boca o rato de laboratório que agora preside aos destinos da educação decide acabar com o reforço a matemática e vai de apostar tudo nas ciências sociais, essas locomotivas de qualquer economia e onde existe pleno emprego.

Sempre fomos liderados por gente poucochinha, nunca conseguimos ter uma visão de longo prazo do país e uma educação em conformidade com essa visão mas agora passámos para um novo patamar de aberração. Felizmente face ao óbvio desastre que é o nosso sistema educativo coloquei as minhas filhas num colégio estrangeiro e é de facto uma diferença abissal para a indigência intelectual que grassa na educação lusa.
De Anónimo a 30 de Março de 2017 às 10:28
Se os alemães nos vem buscar engenheiros às dúzias, o nosso ensino não será tão mau como o pintam.
O reforço das ciências sociais é asnático, sem dúvida. Sem ser perfeito, o ensino actual está melhor de que 20 ou 30 anos atrás, mais valia que estivessem quietos.
Mas, concordo com o articulista, mais investimento no ensino não vai resolver o problema do anémico crescimento nacional. Para isso precisávamos de mais capitalismo e de menos socialismo que por cá abunda.
De Vasco Pulido Valente a 30 de Março de 2017 às 00:12
Óptimo. Muito obrigado.
De José Meireles Graça a 30 de Março de 2017 às 11:32
Obrigado eu!

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