Terça-feira, 19 de Julho de 2016

Heróis do mar e do relvado

The Portuguese, for their part, played true to national and historical type. Theirs is a land that has always used its scarce resources wisely, cannily, stretching them to the utmost extent. How else could a sliver of land on the western extreme of continental Europe build for itself an empire of such magnitude. There is a dourness of resolve, a defensive fortitude, an indefatigable stubbornness to the Portuguese that served them well in empire and served them on the football field on Sunday night.

 

O Europeu já lá vai e o entusiasmo também - na mesma terra onde a arrogância tradicional dos hospedeiros levou uma ensinadela quis o acaso que um atentado nos viesse lembrar que o corpo do Ocidente tem um tumor, que dele nos vamos ocupar nos próximos tempos, sempre que pulsar, a ver se atinamos como impedir que cresça, e se o podemos lancetar ou extirpar. Esse tumor é o islamismo, mesmo que a maior parte dos meus colegas médicos não concorde com o diagnóstico, por julgar tratar-se de uma inflamação passageira, a curar com rezas multiculturais e mezinhas solidárias.

 

Dos atentados terroristas falarei noutra maré, porque creio que não faltarão ocasiões - a nossa insignificância e a exiguidade da comunidade muçulmana põem-nos, relativamente, ao abrigo de atentados (ainda que a diligência do patético Costa, a convidar imigrantes, e o patrocínio do homúnculo Medina, a subsidiar a construção de mesquitas, façam o possível para nos atrair mais esse atributo da modernidade suicida), mas lá que haverá mais atentados na Europa - haverá. O Islão não é compatível com a irreligiosidade das consciências e dos comportamentos, nem com um Estado neutro em matéria de costumes e igualitarista no que toca a direitos das mulheres, e portanto a identidade das comunidades muçulmanas só pode afirmar-se contra a identidade dos nacionais dos países que as acolhem, logo que as dimensões lhes permitam ter bairros, escolas e instituições próprias.

 

Mas este post não é sobre atentados, é mesmo sobre futebol. O futebol dentro das quatro linhas, a despeito dos esforços dos comentadores, não é difícil de perceber: as regras não são muitas (menos de 20), o objectivo é evidente, e só não ganha sempre o clube ou selecção que tem melhores jogadores porque o jogo, sendo de equipa, obriga a que cada um se abstenha de brilhar, a benefício de quem esteja mais bem colocado para progredir, sob pena de ver os seus esforços anulados pela defesa contrária; e obriga a que o treinador disponha as suas peças no terreno de modo a anular o que a equipa contrária sabe fazer (o que implica conhecê-la) e tire o melhor partido do que os jogadores próprios sabem fazer nas posições que lhes convêm (o que implica conhecê-los). Isto, mais a preparação física, o ocasional golpe de génio de jogadores sobredotados (como Cristiano ou Quaresma), o espírito de sacrifício, a capacidade de ler o jogo e fazer as correcções necessárias, com a prata de que se dispõe, faz a equipa ganhadora - sempre que a combinação destes factores for mais hábil, ou inerentemente melhor, do que a do opositor.

 

É preciso também sorte. E mesmo que a sorte não explique uma sucessão de vitórias, nem o azar uma sucessão de derrotas, não existe menos por isso: quem achar que, no futebol e na vida, a sorte e o azar não existem, pode trocar por acaso favorável e acaso desfavorável - sempre a coisa, ficando igual, parece diferente e mais aceitável.

 

Este paleio parece, e é, lógico, mas sabe a pouco. Sucede que Tunku Varadarajan, o autor lincado no início (cidadão britânico nascido na Índia e vivendo em Brooklin, diz a wikipédia) captou na carreira da nossa selecção algo que intuímos lá esteve. E podemos então pensar, se nos quisermos deixar embalar por arroubos nacionalistas, que o nosso Ronaldo foi dizendo para os seus botões que:

 

Aqui ao leme sou mais do que eu:/Sou um povo que quer o caneco que é teu;/E mais que Deschamps, que me a alma teme/E roda nas trevas do Stade de France,/ Manda a vontade, que me ata ao leme,/Do engº Ferdinand.

 

Gosto de acreditar que a selecção de todos nós, por alguma alquimia difícil de explicar, nos representou com as nossas qualidades e os nossos defeitos.

 

Porque, além do mais, se não quisermos pensar assim, teremos que concluir que Fernando Santos, como Mourinho antes dele, trocou a beleza do espectáculo pela eficácia - as equipas de Mourinho também não costumam jogar bonito.

 

E isto devia preocupar as pessoas que gostam de futebol e não apenas da pertença a uma paixão clubística, e que gostariam de chamar ao interesse pelo jogo quem disso anda arredio - a maior parte da população. Porque os estádios da maior parte dos clubes em Portugal estão quase sempre mal cheios, ou meio vazios. O espectáculo da selecção atraiu, pela paixão, pelo drama e pela expectativa, até mesmo quem não vê jogos habitualmente - somos todos portugueses, mas não somos todos, nem sequer a maior parte, a despeito do massacre televisivo, adeptos de futebol.

 

Querem os estádios cheios, são entendidos em futebol, e gostariam que quem não teve quem em pequeno lhe incutisse o vício do clube, que é na realidade a desculpa para o conforto de pertencer a uma tribo, visse o espectáculo? Resolvam dois problemas: um é o da violência nos estádios, que afasta as mulheres e as famílias; e outro é o das regras, que consentem, e recomendam, que mais importante do que marcar golos é não os sofrer. Os nossos treinadores, artigo de exportação cobiçado em todo o lado, fazem émulos. E, a prazo, o futebol tenderá a parecer, salvo o ocasional fogacho, um jogo de xadrez executado por robôs.

 

Mas eu, como se vê, de terrorismo, e de futebol, não entendo nada.

publicado por José Meireles Graça às 17:06
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