Sábado, 5 de Novembro de 2016

In Memoriam

Anteontem aprestei-me, como há muitos anos, para ver a Quadratura do Círculo, coisa que venho fazendo ultimamente com crescente desgosto.

A perenidade, e o sucesso, do programa, junto daquela minoria de pessoas que se interessam por questões políticas, sociais e económicas, resultavam de uma receita simples mas eficaz: juntar três tipos com algum cachet, um próximo do PSD, outro do PS e outro do CDS, e pô-los a falar sobre os casos da semana. A exclusão de gente à esquerda do PS garantia que haveria um terreno comum de valores com cuja discussão não se perderia nem tempo nem espectadores (os comunistas e afiliados não convertem senão convertidos, e o seu debate com democratas é sempre envenenado pela contradição insanável entre o que dizem defender, na sua língua tradicionalmente de pau, e o que realmente defendem); a limitação a três participantes diminuiria a possibilidade de balbúrdia dando ao mesmo tempo algum tempo a cada um para expor o seu ponto; e a rejeição do simples debate a dois aumentava o interesse do programa porque o leque de escolhas entre posições de direita e esquerda nunca fica adequadamente representado apenas por duas posições.

A fórmula original, a do programa radiofónico que lhe deu origem, havia sido imaginada por Vasco Pulido Valente, que aliás nele participou durante algum tempo, sem que todavia o tenha crismado de Flashback, e a paternidade da ideia foi-lhe subtraída nos benefícios e na história - pecados velhos de uma cidade, e um meio, pequeno e pulha. As coisas vieram a cristalizar, para o que aqui me interessa, a partir de Janeiro de 2004, quando José Pacheco Pereira, José Magalhães, António Lobo Xavier (que havia substituído Nogueira de Brito), com Carlos Andrade na moderação, iniciaram a emissão na SIC Notícias com o nome de "Quadratura do Círculo" - é desse tempo que data a minha fidelidade.

Quem tivesse simpatias partidárias do tipo clubista inclinava-se a achar que o seu campeão tendia a amassar os outros dois; quem as tivesse de forma mais reflectida deixava ocasionalmente que um ou outro dos adversários lhe parecesse mais convincente; e a quem fosse impenitentemente viciado em pensar pela própria cabeça podia acontecer, de quando em quando, concluir que os três cavalheiros mijavam, em simultâneo, fora do penico, com perdão da imagem.

José Magalhães, um aldrabão de discurso torrencial, foi substituído por Jorge Coelho, em 2005, e o que se perdeu em exercícios de retórica ganhou-se em manha - o PS não saiu prejudicado, e terá sido mesmo beneficiado junto das bases, da terceira idade e dos empregados do comércio; em 2008 Jorge Coelho foi tratar da vidinha e em seu lugar veio António Costa, que trocou com o mesmo Coelho em 2014. Neste ano, com efeito, Costa conseguiu remover do secretariado-geral do PS o bom do Seguro, que lhe tinha estado a guardar o lugar nos anos em que Costa se dedicou a fazer esquecer a sua condição de comparsa de Sócrates, a montar o cenário da sua gestão supostamente competente da Câmara Municipal de Lisboa, e a fazer oposição ao governo PàF. Realmente, ser ao mesmo tempo Secretário-Geral do PS e comentador da Quadratura seria um pouco demais, já tendo sido difícil de engolir, para muitos espectadores, a acumulação com as funções de Presidente da Câmara.

O sucesso não decorreu apenas, é claro, da fórmula, mas também da personalidade dos participantes. Dos três que lá estão agora uns espectadores respeitam Pacheco, porque leu evidentemente mais livros do que o leitor médio; outros Coelho, que não leu mas tem mais ronha no dedo mindinho que os outros no corpo todo; e os restantes Xavier porque se diz de direita, parece entender de fiscalidade e banca, de burro não tem nada e se comporta de forma inexcedivelmente cordata e educada. Os três têm à-vontade, experiência e jogo de rins para compor o programa.

As pessoas são estas, e serviriam, mas a fórmula do programa está prejudicada, e já o está desde que Passos Coelho ascendeu ao topo do PSD.

Isto carece de explicação, que intento: Pacheco Pereira é um intelectual atípico, no sentido em que não simpatiza ou antipatiza com os actores da actualidade política porque estes estão mais perto ou mais longe da opinião que tenha sobre o que é melhor para a comunidade, como fazem os intelectuais vulgares. Não, Pacheco funciona ao contrário: simpatiza com Beltrano e Sicrano por razões que não entendo, e o próprio talvez também não, e deduz teorias políticas esdrúxulas que justificam a simpatia. Isso explica que tivesse sido um defensor feroz de Cavaco quando este era novo e foi governante, mas seu inimigo quando presidente, tendo Cavaco sido igualmente medíocre, e igualmente constante nas suas posições políticas, nessas duas encarnações; que tivesse apoiado a invasão do Iraque mas hoje esteja próximo dos Democratas e abomine Republicanos; que fosse um inimigo empenhado de Sócrates, de quem Costa foi número dois, e hoje um feroz defensor de Costa, que não difere de Sócrates em nada de essencial; e que simpatize com, por exemplo, Manuela Ferreira Leite, uma nulidade política, e com Rio, um indeciso notório muito diferente daquela senhora, mas odeie visceralmente Passos Coelho, a quem não assiste nem a mediocridade de uma nem a falta de determinação do outro.

Pacheco é assim: se os anos da troica tivessem sido conduzidos por Ferreira Leite não teriam sido substancialmente diferentes as políticas, mas Pacheco tê-las-ia recoberto com o manto da autoridade que a sua biblioteca na Marmeleira lhe confere. Como porém foi por Passos, Pacheco deslizou para a esquerda, a ponto de, antes de se tomar de amores por Costa, o Bloco, que deveria estar afastado do convívio das pessoas de representação, estar fugazmente representado na Quadratura via Pacheco.

Ora isto desequilibrou o programa - ele não foi pensado para uma preponderância de esquerda. E portanto desde 2011 que Xavier teve a missão de segurar sozinho a bandeira da direita (na versão europeísta e edulcorada que o próprio representa), o que fez com galhardia.

Costa, porém, foi lentamente criando uma relação de cumplicidade com os outros dois, com um por ter em comum a aversão a Passos, com outro por, provavelmente, ter conseguido dar a entender que seria a pessoa certa para resolver de forma satisfatória o problema da banca (é um processo de intenções que faço, devido ao meu vício antigo de, sempre que ouço políticos a falar, ter tendência a perguntar, como Fontes Pereira de Melo: mas o que é que ele quer?)

E é assim que a Quadratura, a velha Quadratura, chegou ao fim: um programa de debate entre três tendências do PS - a radical, de Pacheco, e duas de interesses (uma centrista, de Coelho, e a outra democrata-cristã, de Xavier), todas igualmente costistas.

Perdeu a novidade da juventude, já não tem a lucidez da idade madura, e não adquiriu a sabedoria da idade. Acontece. RIP.

publicado por José Meireles Graça às 19:39
link do post | comentar
2 comentários:
De Anónimo a 10 de Novembro de 2016 às 11:04
Muito bem.
De Anónimo a 10 de Novembro de 2016 às 17:38
Estou curioso, mas suspeito que me vou divertir, com as reacções dos comentadores à vitória de Trump, no programa de hoje.

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Mas já era assim há dez, há vinte, há trinta...
Tem razão, mas o homem tem 94 anos ...
As sondagens não contam as opiniões da maioria dos...
É o que merecem os crentes -maioria dos cidadãos, ...
Perfeito

Arquivos

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

fmi

francisco louçã

geringonça

gnr

governo

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

jugular

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário nogueira

mário soares

mba

miguel relvas

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter