Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

Inimigo à Porta

Claro que é filho de mãe portuguesa - vê-se logo pelo nome. Deve ter frequentado ainda uma velha escola do Plano dos Centenários, feito o secundário numa dessas C+S que sucessivos autarcas e ministros com sezões de paixão pela educação espalharam pelo país, não é impossível que tenha feito a sua catequese na velha igreja da aldeia onde viu a luz, e na força da vida foi forçado a abandonar a terra ingrata que lhe deu o ser e procurar entre os gauleses o magro sustento que um destino cruel lhe negou - até estou comovido, caramba.

 

A sério: catequese fez, isso é seguro. E, a julgar pelo resultado, imaginamos sem esforço de que tipo terá sido: as doces freirinhas tinham decerto barbas, sabiam o Alcorão de cor e prometeram-lhe a bem-aventurança de para cima de três dúzias de virgens através do expediente de se imolar, se tivesse o cuidado prévio de enviar para o inferno a maior quantidade possível de infiéis e de cruzados.

 

Um atentado terrorista não tem nada de novo, e tivemos na Europa em devido tempo, em nome do nacionalismo irlandês, ou basco, ou corso, ou da revolução vermelha, doses assinaláveis; e isto sem ir muito para trás, que anarquistas e crentes em doutrinas milenaristas de todo o tipo também deixaram a sua marca, sem falar dos actos isolados que foram o espoletador, por exemplo, da Grande Guerra, ou aceleraram uma mudança de regime, como entre nós o bem-sucedido atentado do Buiça.

 

O terrorismo do islão é, porém, diferente, porque transporta para três problemas que o mundo muçulmano não resolveu, nem está perto de resolver: um é o da separação entre a igreja e o Estado; outro o do antagonismo entre as suas duas principais correntes, o xiismo e o sunismo; e o terceiro o da influência da cultura, riqueza e sucesso ocidentais, que não podem ser vistos senão com ressentimento por, se importados para países em boa parte medievais, abalarem a ordem estabelecida, em particular no que toca ao papel das mulheres, implicando mudanças de tal forma profundas que a própria identidade nacional, quando exista, ou religiosa, ou as duas, fica em causa.

 

Houve um tempo em que alguns ditadores resolveram temporariamente parte do problema. Mustafa Kemal, Nasser, o xá do Irão, Saddam, outros ainda, ocidentalizaram à força, e a receita funcionou durante algum tempo e terá ganho algumas raízes naqueles países onde ficou uma instituição com suficiente homogeneidade para contrabalançar o poder do clero - o Exército, no caso do Egipto e da Turquia, ou a monarquia em Marrocos. Na generalidade dos outros países, de resto quase sempre criações artificiais do tempo em que as potências europeias repartiam os territórios em zonas de dominação ou influência consoante os seus jogos de poder, a eliminação de um regime ditatorial trouxe e traz quase sempre ou outro - ou o caos.

 

Este caldeirão encontrará um dia, num futuro longínquo, o seu equilíbrio. Mas ele não virá sem que a Igreja se separe do Estado, coisa que o islão terá muito mais dificuldade de fazer do que o cristianismo teve, porque num caso o fundador se colocou desde o princípio à margem (a César o que é de César), noutro era ele próprio um dirigente civil e militar, e deixou nos textos sagrados a marca dessa origem - o que significa que a cambalhota da exegese necessária para que o Corão dispense o governante de legitimidade religiosa é muito maior do que na Bíblia.

 

Tivemos o nosso farto quinhão de guerras religiosas, desde logo a que o islamismo perdeu no Ocidente, e que ainda não digeriu, a que o Ocidente quis levar ao Oriente Médio, e que perdeu, bem como as inúmeras que se abrigaram sob os largos chapéus da Reforma e da Contra-Reforma.

 

Das outras guerras, das que não tinham uma componente religiosa dominante, já fomos servidos na Europa com duas mundiais, só no séc. XX, além de outras menores. E como os interesses permanentes das nações não se extinguiram, Israel está onde está e não na Namíbia, e a História não acabou, nada garante que a guerra seja uma coisa do passado.

 

A guerra é uma coisa do presente, e os atentados de Paris vieram lembrar, a quem andava distraído, que o mundo é um lugar muito pequeno e que a guerra religiosa, que se julgava relegada para o programa de história do ensino secundário, está entre nós.

 

Isto, pelo menos, é novo - está entre nós. Poderia não estar, se nunca tivesse passado pela cabeça dos neocons a ideia peregrina de ir, a golpes de bombas e ignorância, exportar a flor da democracia para terrenos onde ela não medra; se os nossos ó tão modernos regimes seleccionassem os imigrantes de modo a que, pela quantidade e pela origem, não se criassem abcessos que um dia será preciso lancetar; se as opiniões públicas, com a lágrima fácil ao canto do olho, não comandassem os reflexos populistas de políticos acéfalos, deslumbrados com Primaveras passageiras; e se, sem deixar de defender interesses, o fizessem com consideração lúcida do que virá depois do generoso abrir de portas e do derrube de monstros iguais a Assad ou a Khadafi - como se a alternativa realista fosse melhor.

 

Cette fois, c'est la guerre, declarou o patético Hollande, e os aviões franceses já andam a despejar bombas por cima do Estado Islâmico.

 

Fazem muito bem, Putin e os Curdos estavam muito sós, e os Americanos muito desnorteados. E se alguns dos valentes cidadãos que cantaram a Marselhesa calçarem as botas, ou apoiarem quem calce, e forem ao terreno caçar os dementes e pôr cobro ao despautério de um regime que ameaça e desafia os estados verdadeiros - melhor. Porque parece, dizem os entendidos, que ainda não se podem ganhar guerras só com drones e bombardeiros.

 

Paralelamente, conviria também declarar guerra a Marselha, Molenbeek e todos os outros lugares onde florescem as mesquitas, os imãs e as madraças. Porque o islão será talvez uma religião de paz; mas não é noutra que se recrutam os inimigos do nosso modo de vida.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 18:32
link do post | comentar
1 comentário:
De Manuel Nunes Guerreiro a 16 de Novembro de 2015 às 20:31
A religião corânica foi sempre guerreira e violenta. Por outras palavras e sem paninhos quentes ou efabulações para criar confusão: ela é apenas o cimento para agregar combatentes, que quando faz falta passam a terroristas. Houve um desenvergonhado, um real fascista, que referiu algures que também os índios lutavam fortemente contra os generais custers daquele tempo. MAS "EQUECEU-SE" DE DIZER QUE OS ÍNDIOS LUTAVAM FERREAMNTE, SIM, MAS PARA ESTABELECER LIBERDADE, AO PASSO QUE OS CORÂNICOS LUTAM E MASSACRAM PARA ESTABELECER A OPRESSÃO. A sua férrea opressão que visa o domínio do Mundo!
Esta a diferença fundamental e nuclear!

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Exigem ser os donos de Portugal, e fazem de tudo p...
A Sra. Bastonária esqueceu-se de uma coisa. Não só...
Acho que a Sra. Bastonária terá sido porventura po...
Nem mais, os minhotos com razão.Ppq
Nos hospitais portugueses há 50 anos havia mulhere...

Arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter