Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Jardim das tormentas

Na terrinha que me viu nascer e onde, salvo uns poucos anos de intervalo, sempre vivi, os jardins e as fontes não param quietos: de vinte em 20 ou 30 anos uma esclarecida vereação tira uma fonte daqui e passa-a para outro lado, à boleia de uma qualquer requalificação, e os jardins ora são de pedra (uma contradição nos termos que esteve em moda aqui há uns anos, por influência de um concelho rival, vizinho, que importou a patetice não sei de onde), ora têm canteiros de flores substituídas com frequência e mantidas a peso de ouro, ora veem os bancos substituídos por outros mais modernos, com design (bancos com design são aqueles em que, invariavelmente, ao fim de dez minutos o rabo está dormente e as costas pedem uma massagem), ora têm espaços pedonais que ontem foram de saibro e tinham o desenho xis e hoje são revestidos no que parece ser barro mas é um material sintético qualquer e têm o desenho ípsilon. Às árvores raramente é dada a oportunidade de terem um porte nobre - invocam-se doenças, reais ou imaginárias, riscos para o trânsito (já não é o primeiro nem o segundo plátano que se atira violentamente contra um automóvel), os bichos perigosos que, subindo pelos troncos, passam para as marquises e daí para o quarto do bebé, a quantidade prodigiosa de folhas que, no Outono, entopem os bueiros e zás, vai abaixo que a Câmara põe outras mais maneirinhas, cheias de saúde e de espécies na moda - ultimamente têm-se transplantado algumas oliveiras, vindas do Alentejo e Trás-os-Montes, vá lá saber-se porquê.

 

Sempre que há alguma remodelação profunda do espaço público e do mobiliário urbano os ânimos inflamam-se porque o espaço é de todos mas, desgraçadamente, uns desempoeirados gostam quase sempre do novo; e outros, reaccionários, não. As câmaras costumam ter o cuidado de não ofender desnecessariamente os seus munícipes e, se querem fazer algum disparate controverso, munem-se de projectos assinados por arquitectos prestigiados: quem ousa dizer que a Avenida dos Aliados, no Porto, não ganhou nada com a intervenção de 2006, na qual participou Siza Vieira?

 

Surpreendentemente, porém, neste género de assuntos costumam estar ausentes considerações economicistas. É como se decidíssemos remodelar a casa porque estamos fartos dela mas não precisássemos de pensar se há para tanto recursos e, havendo, se não poderiam ter utilização mais judiciosa.

 

A falida câmara de Lisboa, uma empresa cujo CEO passou ao regime de part-time há meses por mor de arranjar uma colocação melhor, tem um jardim meio abandonado numa zona nobre. Porque vai requalificar a zona para nela instalar coisas que acha mais úteis do que as que lá estão? Porque vai fazer um jardim japonês mais nipónico ainda do que os autênticos, maravilha futura das hordas de turistas que os paquetes incessantemente despejam? Porque todo o jardim não tem real valor histórico, dada a natureza perecível do meio, a banalidade dos arranjos e a mediocridade dos autores? Vá lá, singelamente, porque não tem dinheiro para o conservar decentemente?

 

Não. Por considerar que os brasões dos antigos territórios ultramarinos "estão ultrapassados" e que "não faz sentido mantê-los". Por isso, “não vão ser recuperados”. Segundo a mesma fonte, os restantes brasões vão ser reabilitados. 

 

Temos a burra nas couves, assessorzinho de uma figa: Nenhum testemunho do Estado Novo, da 1ª República, da monarquia liberal, da absoluta, da Restauração, do Filipismo, dos Descobrimentos, da Reconquista, do que seja do nosso passado, está "ultrapassado". Porque o símbolo não é a coisa, apenas a representa; e sem o conjunto dos símbolos das ideias mortas amputa-se uma parte da História.

 

Arranja outra explicação, vereador Zé Fernandes; que essa nem sequer é boa, quero acreditar, para a minoria de lunáticos que te elegeu.

publicado por José Meireles Graça às 02:01
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