Sábado, 28 de Fevereiro de 2015

Lagarde's list

Um ladrão rouba informação da empresa que lhe dá trabalho e com ela põe a boca no trombone, numa história rocambolesca que envolve vários países, polícias, magistrados e políticos.

 

Agiu por ódio aos ricos? Por radicalismo de esquerda? Por querer dinamitar o sistema bancário suíço? Por ter um invencível horror à evasão fiscal? Ou para, mais provavelmente, vender a informação?

 

Não sabemos. Líquido é que praticou um crime num estado de Direito, que além do mais não é conhecido por ofensas aos Direitos Humanos, ou insuficiências do seu regime democrático, ou a dureza do seu sistema penal, ou a violência dos costumes. Se permanecesse na Suíça estaria provavelmente preso.

 

Christine Lagarde não rasgou, como devia, a papelada - passou-a adiante. De toda a evidência, o segredo bancário não é um valor que Christine julgue ser seu dever preservar.

 

Fez mal. E mal fizeram e fazem todos os políticos que sobre este e outros leaks vêm para a praça pública, o olho arregalado de cobiça, as bocas torcidas num rictus justiceiro, bater as mãos no peito a prometer justiça, sob a forma de multas terroristas, confiscos, quando não prisões - ai que somos tão comunas, quando somos da esquerda social-democrata, e tão cowboys americanos, quando não somos.

 

É claro que os paraísos fiscais não vão acabar, não obstante a lunática reivindicação de muitos profundos pensadores da coisa pública mundial - a isso se opõe a globalização, que implica liberdade de comércio, que por sua vez gera mais alçapões do que os que consegue ver um super-polícia, e o próprio princípio da nacionalidade e independência dos países - sempre haverá candidatos a furar o esquema.

 

Donde, prejudicar a Suíça é como fazer apreensões de droga: se forem grandes o produto encarece por algum tempo, após o que a produção, ou o engenho do tráfico, recuperam - porque o consumidor, e a procura, não diminuíram. O traficante vai dentro, as polícias fazem o seu show, as televisões agradecem, os pais de família sorriem agradados - e o tráfico arranja outros actores, e outros circuitos.

 

Isto é muito frustrante para o contribuinte, que imagina que se não houvesse evasão a sua carga seria aliviada. Puro engano: entre o erro dos cálculos sobre a falha de receita (uma parte do dinheiro evadido regressa aos cofres dos Estados sob a forma de impostos sobre o consumo ou sobre a propriedade), os danos à poupança (os Estados não poupam, os cidadãos sim), e os danos ao investimento (os bancos emprestam para investir na proporção, grosso modo, dos depósitos que detêm), o que sobra para alívio não é tanto como se supõe. E fica ainda menos se nos lembrarmos que não há, no passado recente, qualquer prova de que, salvo diktats dos credores, se os Estados deficitários cobrassem mais, teriam défices menores: se cobrassem mais gastariam mais, ponto.

 

Os Estados não têm défices e dívida, de forma continuada, por cobrarem muito ou pouco - os défices são escolhas.

 

Acresce que a confiança nos bancos está já, um pouco por toda a parte, abalada, por o sistema de recrutamento não filtrar patifes, carreiristas e académicos travestidos de gestores, sob a supervisão de farinha do mesmo saco, e se ter perdido algures não os fatos às riscas mas a prudência que dantes vinha com eles. Razão por que o sistema bancário não precisa que se nos abale ainda mais a confiança, mesmo que a não mereça, nem de incentivos a evasões para debaixo dos colchões, ou para aforro em antiguidades ou metais, por exemplo.

 

Depois, espera-se de responsáveis políticos, em sentido estrito ou lato (Christine Lagarde, os governadores de bancos centrais, a cáfila que está no Eurogrupo, ou nos outros enxundiosos organismos supra-nacionais, são políticos), que sejam mais lúcidos, prudentes, ponderados do que a opinião pública. Esta, além de ser uma rameira volúvel - hoje pensa uma asneira qualquer e amanhã outra oposta - vive a reboque de uma imprensa ignara, esquerdista pela sua maioria, que usa pontapear a lógica, o senso e a gramática na mesma frase em que assopra o lume da inveja.

 

Estou a fazer a apologia da evasão fiscal? De modo algum: ela financia a concorrência desleal, incentiva o desrespeito pela lei e diminui a importância da concorrência fiscal (esta, precisamente, o melhor argumento para a opinião pública perceber que os impostos altos sobre os ricos e as empresas têm consequências no emprego e na riqueza dos países).

 

Mas não se combate um mal com outro maior; não se conquista, a prazo, o respeito da opinião pública por se a seguir caninamente; e não governa capazmente quem não sabe mais do que os lorpas com que se aconselha.

publicado por José Meireles Graça às 14:35
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Nem mais, os minhotos com razão.Ppq
Nos hospitais portugueses há 50 anos havia mulhere...
Só falta mesmo é a Ordem das Sopeiras, quero dizer...
O jornalismo cairá, por cá, como vai caindo por lá...
O conselho que costumo oferecer aos meus correspon...

Arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter