Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

Lepra

A sabedoria convencional diz-nos que a táctica seguida inicialmente pelo PSD de martelar incessantemente a ilegitimidade originária do governo Costa, que só nasceu porque apoiado numa maioria com comunistas que não foi aventada na campanha eleitoral nem tinha precedentes, foi arrastada durante demasiado tempo. Já o CDS, após Portas ter anunciado o óbvio (óbvio quer dizer que se tornou fácil de ver para toda a gente depois de o ter dito), isto é, que de futuro só seriam possíveis governos de direita com maioria absoluta, deixou rapidamente cair a lamúria.

 

O eleitorado vive no presente e quer que lhe garantam o próximo fim do mês melhor que o de há um ano, e para o resto do futuro contenta-se com promessas vagas desde que risonhas - o que lá vai lá vai. É por as coisas serem assim, e o PS ser delas um óptimo intérprete, que as sondagens que andam por aí não penalizam o governo golpista, donde pessoas de representação deduzem que o PSD e o CDS se devem esforricar em projectos, iniciativas e propostas alternativas.

 

Tretas. Que no campeonato da diarreia legislativa, lançamento de novos serviços públicos, manutenção dos existentes, dinamização da economia a golpes de subsídios e voluntarismo, desarme de conflitos sociais com cedências, e criação artificial de um clima de optimismo - o PS ganha, e o PSD muito, e o CDS alguma coisa, sempre o acompanharam no esforço, com excepção do tempo da tutela da troica.

 

É por as coisas serem assim que a dívida pública chegou ao nível a que chegou, e que não pára de crescer, a despeito da propaganda sobre a suposta redução do défice, na qual as instâncias europeias fingem acreditar (para explicar a discrepância - a dívida cresce mais do que proporcionalmente ao défice apresentado - os economistas dizem candidamente que não percebem); e que, a menos que surja um basta! dos credores, sob a forma de juros incomportáveis, ou um basta! dos comunistas, por perderem cada vez mais votos a troco de cada vez menos novas cedências, Costa continuará de vitória em vitória até à derrota final. Que infelizmente será também a do país.

 

Até lá, o regime vai apodrecendo. E a novela bufa destes dias em torno do banco público, que cobre de lama o presidente da República, cuja hiperactividade, incontinência verbal, e ausência completa do mais elementar sentido de Estado, estavam à espera de uma oportunidade para se tornarem evidentes, mesmo para o mais furioso apreciador de selfies parvas; que desprestigia o Parlamento, por as necessidades da coligação se terem sobreposto aos poderes de uma comissão de inquérito, eliminando o elemento de contrapoder que estas alguma vez tiveram; que impede que o cidadão conheça os nomes dos responsáveis, e dos beneficiários, do descalabro que fez com que aquele banco precise de cinco mil milhões de reforço de capital, sem que se perceba que parte é que cabe à crise, que parte cabe a exigências dos dementes de Frankfurt, e que parte cabe a salteadores e ineptos; e que trouxe para a praça pública uma litania de personagens menores, desde bancários de imaginária competência pagos a peso de ouro com dinheiro público, ministros que subcontratam a feitura de leis a privados que delas directa e exclusivamente beneficiam, apresentando a conta ao contribuinte, para já não falar de alguns parlamentares televisivos que se prostituem em nome da disciplina partidária ou da estratégia de um bem maior, e de comentadores cuja independência está comprometida pela necessidade de agradarem ao governo:

 

Vem provar que o pecado original deste governo, isto é, o apoio de comunistas (os que são e os que fingem não ser), não tem apenas o preço das reversões, da conservação deletéria do poder dos sindicatos, e da paralisia de qualquer esforço sério de reforma.

 

Mesmo sendo Costa um depositário de todas as ideias erradas que levaram à falência do país, às quais faz as entorses necessárias para os nossos patrões europeus continuarem a bancar o forró, e mesmo sendo um mentiroso contumaz, como abundantemente já demonstrou, nunca um governo minoritário da PàF, com a abstenção do PS, ou até mesmo incluindo alguns socialistas mais apresentáveis na boa sociedade, levaria o país a estes extremos de abjecção.

 

Não é que uma tal solução pudesse resolver os nossos problemas; nem eles jamais começarão a ser resolvidos senão quando a esquerda - toda - for varrida do universo decisório. Até lá, a chamada direita faria bem em pensar com paciência no day after; e ocasionalmente lembrar-se, e lembrar-nos, que Costa tem lepra - contraiu-a logo a seguir às últimas eleições.

publicado por José Meireles Graça às 12:30
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4 comentários:
De ana paula a 17 de Fevereiro de 2017 às 13:50
Tão frustração tão tonitruante que vai por aí
De Anónimo a 22 de Fevereiro de 2017 às 10:27
Sim, tem razão, é a frustração de quem pagou a última bancarrota e se prepara para pagar a próxima.
De Sergio a 17 de Fevereiro de 2017 às 21:44
Concordo em absoluto. Como é possível 4 anos depois de uma bancarrota alguém ter votado nos mesmos políticos que levaram ao buraco? E a frustração é grande sim, no meu caso por perceber que se calhar os portugueses só tem o que merecem.
De Eduardo Freitas a 18 de Fevereiro de 2017 às 17:12
Muito bem!

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