Quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Liberdade, igualdade e trapos

Um homem feminista é uma espécie de contradição nos termos. É o que aqui se defende, e eu concordo.

 

A este texto da Maria João Marques, que subscrevo por inteiro, talvez não devesse por isso acrescentar nada, de mais a mais uma reflexão pessoal com poucas hipóteses de pacífica. Mas não resisto.

 

Pergunto-me se a maioria das pessoas já cogitou das razões pelas quais as nossas sociedades são monogâmicas. É que a capacidade de gerar filhos é muito superior nos homens do que nas mulheres: elas, coitadas, só podem ter um filho de cada vez; e nós poderíamos engendrar não um em cada ano mas, teoricamente, para cima de uns duzentos, mesmo com abstenção aos sábados e domingos, desde que houvesse vontade e mulheres disponíveis, donde a razão pela qual cada um de nós não tem pelo menos quatro mulheres é um tanto obscura.

 

Claro que não há mulheres disponíveis, pela óbvia razão de que, desde sempre, nos humanos, a fêmea contou com a ajuda do macho para criar o rebento, e portanto não lhe convinha que houvesse outros 199 a reclamar a ajuda do pai. Isto do ponto de vista dela. Mas do ponto de vista dele a situação não era uma de inteira liberdade: se o número de machos e fêmeas é sensivelmente igual, um "dono" de três ou quatro mulheres, e por maioria de quarenta ou cinquenta, significa dois ou três ou quarenta e tal sem mulher nenhuma, que só pode portanto ser obtida raptando numa tribo vizinha, ou na mesma, liquidando o anterior marido, sob pena de abstenção - de sexo e descendência.

 

Isto significa que a monogamia foi um estatuto inventado para garantir, ainda antes de se cogitar de coisas modernas como a igualdade de direitos entre os sexos, a paz.

 

A burqa é o testemunho físico de uma realidade social arcaica, não sendo coincidência o facto de ser típica de sociedades poligâmicas: as mulheres que as usam (salvo as inevitáveis excepções, em se tratando de pessoas há sempre excepções) poderiam com igual propriedade usar, além da burqa, grilhetas porque o propósito é diminuir a atractividade perante homens diferentes dos legítimos proprietários.

 

Daí que estas infelizes mulheres tenham uma autonomia e liberdade inferiores às dos homens adultos da sua família, em obediência às tradições e crenças da sua comunidade. No Ocidente achamos, depois de um longo percurso semeado de lutas e violências, percurso que aliás ainda não chegou ao seu termo, que mulheres e homens têm os mesmos direitos.

 

A burqa não é assim uma moda nem apenas um símbolo religioso ou social, é uma limitação física à liberdade das mulheres, dado que lhes nega o direito a serem vistas. Fosse eu intelectual, esquerdista ou sociólogo - não sou, graças a Deus, considero-me uma pessoa normal - e diria que a burqa coisifica irremediavelmente as mulheres.

 

O Governo Francês quer proibir este estado de coisas? Faz muito bem e não é jacobino por isso - é apenas legalista e realista. Legalista por impor a igualdade dos cidadãos perante a Lei e realista por sinalizar a uma comunidade que a defesa da identidade cultural e religiosa dela não pode fazer-se ofendendo as leis da terra.

 

Daí que, afinal, talvez o assunto seja menos um de feminismo e mais outro de direitos humanos: defender a liberdade não pode ser defender a liberdade de oprimir.

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publicado por José Meireles Graça às 19:26
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4 comentários:
De Tiro ao Alvo a 3 de Julho de 2014 às 19:48
Não discordando do seu ponto de vista, antes pelo contrário, decidi vir aqui apenas para lhe dizer que conheci um cavalheiro que conseguiu ser pai de duas criaturas nascidas no mesmo dia, mas filhas de mulheres diferentes, facto raro entre nós, mas que ajuda a entender a sua teoria de que "a capacidade de gerar filhos é muito superior nos homens do que nas mulheres".
De José Meireles Graça a 4 de Julho de 2014 às 00:54
O meu primeiro médico, já falecido, dr. Vítor Oliveira, era pai de 6 filhos de 6 mulheres diferentes. O meu médico actual é um desses filhos.
De Maria João Marques a 3 de Julho de 2014 às 21:58
Zé Maria, também para ilustrar o teu ponto: tenho um amigo que é neto de um chefe tribal guineense; o seu avô teve 47 filhos e mais de 200 netos.
De José Meireles Graça a 4 de Julho de 2014 às 01:01
O caso a seguir (se for verdadeiro, como acredito) deixou-me em estado de profundo respeito, pelo homem e por D. João II:
http://brunocazevedo.blogspot.pt/2010/02/padre-que-teve-299-filhos-recebe-perdao.html
De resto, numerosos sultões turcos tiveram mais de 40 filhos. Os problemas dinásticos eram tradicionalmente resolvidos pelo expediente de o novo sultão mandar estrangular os irmãos logo no início do reinado, uma medida de grande alcance a favor da estabilidade governativa,

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