Sábado, 31 de Janeiro de 2015

Lições da História

O Syriza aumentou o salário mínimo em mais de 28%, ou seja, reverteu os cortes salariais da troica de uma penada.

 

Não é difícil perceber, mesmo para os alucinados que os Gregos elegeram, que as empresas não podem pagar. Algumas terão reservas para aguentarem este embate apenas durante algum tempo; outras poderão, ao menos em parte, aumentar os seus preços para compensar; outras ficarão a dever um tanto, e seja o que Deus quiser; muitas, já em situação difícil, fecharão; e como o caminho dos despedimentos será dificultado por também serem reintroduzidas regras de negociação colectiva que estavam suspensas, se este bodo fosse avante haveria uma nova convulsão social, visto que a economia grega não aguenta uma nova vaga de falências.

 

Nisto como no resto o engenheiro Alexis e o Prof. Varoufakis devem saber o que estão a fazer. E como a lógica não é uma batata esta explicação, de um europeísta convicto, faz todo o sentido: que se lixe a Europa do Euro, do equilíbrio orçamental, dos mercados, do Tratado Orçamental, dos jogos intermináveis de poder, e da preponderância da maldita Alemanha. Ou a Europa, o BCE e o Eurogrupo se convertem à lógica da expansão da dívida e do investimento públicos, da desvalorização do Euro, e do abandono da austeridade, a par de aumentos salariais nos países com contas públicas equilibradas, para estes desatarem a importar, ou então mais vale sair. E como o eleitorado grego isso não quer, há que levá-lo a não ter quereres, por ser forçado a sair, ficando o Syriza a capitalizar o ressentimento.

 

Bem visto. E o novo salário mínimo (que aliás empurra todos os salários que não são mínimos para cima, como sempre acontece) pode bem ser de 28%, ou até mais, porque o novo dracma, que será cotado ao quilo, permite qualquer aumento, que a inflação se encarregará de corrigir.

 

A ser isto assim, o muito democrático Syriza e as muito democráticas eleições foram uma vigarice, porque o programa que os Gregos sufragaram incluía uma reserva mental.

 

Não existisse o Euro (ou existisse mas a Grécia a ele não tivesse aderido) e as eleições pouca importância teriam para nós: que a inflação local andasse pela estratosfera; que os corruptos socialistas locais ou os corruptos direitistas locais ganhassem; que o FMI já lá tivesse ido algumas vezes, antes, muito antes, de a dívida pública atingir níveis demenciais e antes, muito antes, de o país ficar em frangalhos - não seria da nossa conta. E, é claro, os radicais de esquerda nunca chegariam ao Poder - só o desespero explica, num país moderno, ocidental e relativamente desenvolvido como a Grécia é, este desenlace.

 

Infelizmente, é da nossa conta, não apenas porque também encostamos a barriga ao balcão em caso de bancarrota ou perdão de dívida, mas também porque as ondas de choque da débâcle chegarão aqui: a pertença ao celebrado clube europeu tem isto de singular - os nossos problemas são nossos e os dos outros também.

 

Talvez, no meio da ansiedade geral, não seja despropositado lembrar que esta história pode acabar bem. Se a Grécia sair, e a convulsão e miséria que se seguir não trouxerem uma nova junta de coronéis, os Gregos em devido tempo despacharão o dinâmico Alexis e a sua troupe para as universidades e os cafés de onde nunca deveriam ter saído; a Grécia, sem défice porque ninguém o financia, em algum momento baterá no fundo e recomeçará a crescer, tanto mais cedo quanto um governo razoável regresse à mesa das negociações; e o instrumento da desvalorização da moeda, que não é a receita para uma economia sã, mas é a receita para corrigir erros próprios, será uma alavanca poderosa para o ressurgimento - como o FMI nunca se priva de recomendar, se não vier em parceria com os guardiães do templo do Euro.

 

Pelo que não é de excluir que da experiência grega se retirem alguns preciosos ensinamentos. Nada mais justo, vindo de um país onde há mais de vinte e cinco séculos nasceram algumas ideias que nos são caras. Não havia nenhuma União, naquele tempo, o que havia eram cidades-Estado. Mas foi lá que o Império Romano aprendeu duas ou três coisas. A História é isto: não há nada de novo debaixo da roda do Sol.

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publicado por José Meireles Graça às 13:58
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