Domingo, 21 de Maio de 2017

Livres das instituições europeias, ficamos finalmente entregues à bicharada

2017-05-22 Wolfgang Schäuble - Hitler.jpg

Amanhã vamos sair do Procedimento por Deficit Excessivo, se Deus quiser. Estamos de parabéns.

Estamos?

Reza uma certa histeria colectiva inoculada e propagada por todos os partidos da esquerda, parlamentar e extra-parlamentar, e também pela direita radical, nomeadamente a populista, que os procedimentos por deficit excessivo, assim como, de uma maneira geral, todos os regulamentos e controlos impostos aos governos dos países pelos tratados europeus em matérias orçamentais, limitam a soberania e a liberdade dos governos para resolverem os problemas dos cidadãos que governam e defendem os interesses egoístas ou até obscuros dos bancos, das economias do centro da Europa, dos seus governos, ou, para resumir a rede de facínoras em poucas palavras, da senhora Merkel e do senhor Schäuble, por acaso ambos Doutores, ele em Direito e ela em Química Quântica, mas senhores, o que é até um elogio comparativamente com os qualificativos que usam para se referir a eles quando falam entre si ou para públicos seleccionados. Pelo que a libertação destas grilhetas permitirá aos governos conduzirem os seus povos até aos níveis de prosperidade que justamente ambicionam. É isso que pregam a esquerda moderada e radical e a direita radical.

Na verdade, não são os interesses da senhora Merkel e do senhor Schäuble que os procediments por deficit excessivo defendem. Servem para proteger os contribuintes de governos perdulários que, em vez de financiar com impostos impopulares as despesas populares que fazem para conquistar o coração dos eleitores, que como toda a gente sabe bate do mesmo lado do bolso onde guardam a carteira, preferem financiá-las com dívida, um conceito quase abstracto enquanto se usufrui dela para se consumir mas muito concreto quando chega a hora de a remunerar com juros e a reembolsar, mas isso será mais um problema dos filhos e dos netos do que deles. Servem para impedir os governos de conduzir os seus povos até circunstâncias em que a cura é mais dolorosa do que a doença foi até aí, se bem que muito menos do que se se deixar a doença evoluir.

É que se vai tornando notório que, mesmo conseguindo dar a muitos problemas respostas que, mesmo quando não são suficientemente satisfatórias, são menos insatisfatórias do que as das alternativas, as democracias têm uma certa dificuldade em tomar as decisões mais adequadas para os cidadãos quando os chamam a decidir entre o curto prazo e o médio e longo prazo, e entre uma prosperidade actual aparente financiada por dívida, que mais tarde se vai pagar à custa de muito sangue, suor e lágrimas, e uma modéstia actual para basear a prosperidade possível no futuro, tem-se verificado que caem muito frequentemente na armadilha encantatória da primeira.

Pelo que a partir de amanhã o governo português que, mesmo com rédea apertada, conseguiu fazer aumentar a dívida pública portuguesa no último ano ao ritmo de 24 mil euros por minuto, ao mesmo tempo em que o crédito ao consumo tem sido concedido ao ritmo de 12 mil euros por minuto, vai ter rédea muito mais solta para nos conduzir muito mais rapidamente até à próxima tragédia, que será pior do que a anterior porque os que nos salvaram na anterior se arrependerão com a inutilidade do investimento que fizeram na nossa salvação.

Amanhã vamos sair do Procedimento por Deficit Excessivo. Apertem os cintos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:48
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Caríssimos, compreendo a V. perplexidade e indigna...
não há p+pachorra para ler um post com tanto palav...
Creio que não tem noção da complexidade da investi...
Ao contrário do que pensava o prof. Cavaco, num di...
É (muito) raro ter alguma coisa a apontar-lhe no q...

Arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

universidade de verão

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter