Quinta-feira, 16 de Junho de 2016

Londristão

Terá havido uma sondagem segundo a qual 31% dos londrinos se sentiriam "desconfortáveis" com um presidente de Câmara muçulmano. Não obstante, Sadiq Khan, Trabalhista, foi eleito por 1.310.000 votos, contra os 994.000 do candidato Conservador.

 

Apurei que muçulmanos em Londres são à volta de 12%; que na campanha a crença religiosa não foi tema dominante ou sequer importante, salvo para os corifeus da esquerda ganirem queixas de islamofobia e racismo à menor insinuação de que a obediência religiosa de Sadiq talvez não fosse exactamente a melhor das recomendações; e que mais de metade dos eleitores não votou.

 

Mas devia. Que um trabalhista vá fazer disparates está na ordem natural das coisas, ainda que não seja impossível que saiba fazer contas - à medida que se avança para Norte os socialistas vão demonstrando uma fé cada vez menor na virtude da despesa pública, pelo que a generalização a partir da nossa experiência doméstica comporta algum risco de injustiça. Há porém mais vida para além do défice, conforme o dito célebre do presidente da República que num dia inspirado trocou a habitual vacuidade pela asneira. Havia, de facto - no caso era a bancarrota.

 

No caso dos londrinos há a vida cultural, os costumes, o comércio, os museus, os teatros, as salas de concerto, os monumentos, o cosmopolitismo, e uma quantidade de outras coisas que fazem de Londres - Londres. E há também a liberdade de cada um dizer o que quer, ver o que quer e fazer o que quer, dentro dos limites da lei.

 

O nosso muçulmano já deu porém sinal de si, precisamente no sentido de proibir que os publicitários mostrem mulheres esculturais seminuas em cartazes no metro, para vender produtos.

 

O palavreado oficial não é o da relação medieval que o Islão tem com os direitos das mulheres, a sexualidade e a nudez: é o de defender as pobres londrinas de expectativas impossíveis, não vá aquelas indefesas mulheres acreditarem que por consumirem uma porcaria de um suplemento alimentar ficam com o corpo que a modelo exibe; e protegê-las da vergonha pela diferença que separa os corpos das feias, das gordas, das velhas e das assim-assim - que são a esmagadora maioria - da perfeição, provavelmente artificial, que o cartaz exibe.

 

Este discurso terá possivelmente o apoio da variedade feminista das mulheres que entendem que os esforços, e os artifícios, para agradar a homens são uma manifestação de inferioridade; a conivência daquelas pessoas que nunca aceitaram senão com desconforto a derrota das igrejas cristãs na libertação sexual que a pílula e os anos sessenta promoveram; e a ruidosa concordância de várias capelas de esquerda ansiosas por proteger o cidadão da publicidade enganosa, do consumismo, da coisificação da mulher e dos alimentos industrializados.

 

É muita gente. E portanto Sadiq é bem capaz de levar a sua avante. Mas mal: porque, estabelecido o princípio de que a autoridade tem a lucidez e a clarividência que às pessoas fazem falta, e assente que estas têm o direito de se sentirem ofendidas por verem imagens que lhes lembram as suas imperfeições, amanhã proíbem-se as imagens de jogadores de futebol em roupa interior, não vão as esposas desprezarem os seus maridos barrigudos; depois os anúncios a, por exemplo, preservativos, não vão os jovens ter ideias lúbricas; e do metro passa-se para a publicidade à superfície, e da rua para a televisão, e desta para os jornais e revistas, e em todo o lado para a limitação da liberdade de expressão, cujo exercício ofende quem se deixa ofender e magoa quem se deixa magoar.

 

Já tínhamos o paleio politicamente correcto, uma autofiscalizarão parva da linguagem para não ferir susceptibilidades de minorias, detestável regressão civilizacional que a esquerda americana originou, exportou para o resto do Ocidente e está minando as universidades e a livre expressão do pensamento onde ela exista.

 

Temos agora, nos seus primórdios, a versão sarracena.

 

Valha-nos Deus. Ou Alá.

publicado por José Meireles Graça às 12:07
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