Segunda-feira, 9 de Março de 2015

Looney Tunes

Estamos a menos de um ano das legislativas. Como de costume, começam a aparecer sugestões de mudanças nas leis eleitorais, com regresso à velha questão dos círculos uninominais, do reforço da proximidade com os eleitores, da diminuição da importância dos directórios partidários, do encurtamento de prazos entre as eleições e as tomadas de posse, e tudo o mais que nunca se alterou porque quem está tem medo de perder no negócio e quem poderia ganhar nem tem força nem sabe bem o que quer.

 

Tenho reflectido muito. E cheguei à conclusão que o tempo está maduro para soluções verdadeiramente radicais, por testar seja em que democracia for, mas que se me afiguram, entre nós, prenhes de promessas.

 

Uma destas seria a distribuição de pastas ministeriais por sorteio, a realizar de entre os filiados maiores de idade no partido ou partidos que conseguissem a maioria na Assembleia da República, desde que os putativos ministros tivessem verificadamente exercido o seu direito de voto, as quotas em dia e estivessem inscritos há pelo menos um ano.

 

Não negue à partida uma ciência que desconhece - esta solução é de tal modo adequada que chega a ser escandaloso que nunca, que eu saiba, tenha ocorrido a ninguém.

 

Vejamos, do lado das vantagens: i) Haveria uma corrida à filiação nos partidos com potencial para chegar ao poder, acabando quer com o reduzido número de pessoas envolvidas no jogo político e na escolha dos candidatos a líderes, quer com a importância relativa dos pequenos partidos, de cujos quadros o grosso da população fugiria com horror, por não poderem ter números premiados - com excepção do CDS, que faz parte do "arco da governação". Isto sem porém se ofender o direito dos pequenos à existência - um tour de force; ii) A importância do PCP seria consideravelmente reduzida, porque é lícito supor que não são os comunistas que ficam em casa no dia das eleições, diminuindo-se portanto a aberração sul-americana de um partido comunista que, com os seus 10%, envenena tudo, controla os sindicatos e influencia parte da comunicação social, atroando os ares, com propaganda, há 40 anos; iii) Reforçar-se-ia, sem tornar o voto obrigatório, a participação nos actos eleitorais, reduzindo a abstenção a níveis insignificantes: no país da raspadinha, do totoloto e do euromilhões, poucos seriam os eleitores que recusariam a possibilidade de lhes sair, de graça, um portfolio ministerial; iv) A Assembleia da República desempenharia finalmente o seu papel de fiscalização do Governo, cujos elementos seriam completos desconhecidos, para evitar que um ou outro cidadão mais voluntarioso, imbuído dos poderes inerentes ao cargo, resolvesse pôr em prática alguma teoria política aprendida num café em Freamunde; assim como estaria atenta ao povoamento do aparelho do Estado com amigos do feliz contemplado, por não ter nenhuma razão para deixar de o fazer.

 

Claro que a ideia precisa ser aprimorada. Por exemplo (mas o ponto é discutível) deveria ser automaticamente excluído o cidadão que calhasse ter formação académica na área a ministeriar: aos licenciados em direito seria vedado o ministério da Justiça; aos engenheiros civis e arquitectos o das Obras Públicas; aos economistas o das Finanças e o da Economia; aos médicos o da Saúde; aos químicos os Assuntos Parlamentares; aos de relações internacionais o dos Negócios Estrangeiros; e assim por diante.

 

Esta limitação pode parecer estranha, mas funda-se na observação de que tem havido poucas coisas mais daninhas da coisa pública do que os especialistas: alguém acredita que um, digamos, empregado de escritório ou canalizador, embarcasse no Citius sem ter a certeza de que aquilo não ia gerar uma barafunda? Haveria alguém que tivesse pensado, sem ser engenheiro, na viabilidade do TGV? Poderia quem quer que fosse, sem ser economista, tentar equilibrar as contas sem começar por reformar o Estado?

 

I rest my case, nesta parte. Ainda que me possam chamar a atenção para o facto de o maior desastre nacional ter sido perpetrado por um duvidoso engenheiro, pelo que, se realmente a licenciatura era de faz-de-conta, a minha tese fica prejudicada - o homem não era licenciado em nada, e nem por isso deixou de ser inexcedivelmente incompetente.

 

Que nada: porque a intenção não é arranjar gente que saiba governar - é, do confronto entre gente independente de pressões e arranjos, e gente dos partidos, poder resultar alguma coisa boa, quanto mais não fosse um interesse acrescido no canal Parlamento, injustamente desprezado, actualmente, pelo espectador.

 

Dir-se-á: e se aparece um tresloucado, amante do espectáculo e do pugresso, que resolve subsidiar todas as filarmónicas do país, porque aprecia a marcha da Aida nos coretos, e todos os clubes de futebol, porque acha que assim se evita que a juventude fuja para a droga?

 

Posso sossegar os ansiosos: tivemos décadas a fio o dr. Jardim na Madeira, e a nacionalidade não tremeu. Ficou portanto demonstrado que o país aguenta sem particular abalo a sua quota de palhaços.

 

Por mim, vou pensar seriamente na perspectiva de me sair o ministério da Justiça (estatisticamente é provável, jogo há décadas na lotaria e depois no euromilhões, está na hora de me sair alguma coisa), para o qual me sinto talhado e que tenho grande fé poderia reformar sem nunca entrar no ministério antes das 11H00 da manhã, sem despachar coisa alguma, e ainda granjeando o direito a uma efígie, do meu lado menos imperfeito, no átrio de alguns tribunais.

 

Sobre os meus planos para esta importante pasta falarei um destes dias. Stay tuned.

publicado por José Meireles Graça às 02:16
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Don’t try to have the last word. You might get it....
Se calhar não percebeu.E o seu interesse por espre...
A PGR era Cândida de Almeida, conhecida por arquiv...
O seu interesse pelo meu nome de baptismo faz-me l...
Ho f. bai-te f., primeiro vamos tratar de identifi...

Arquivos

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter