Domingo, 13 de Dezembro de 2015

Marcelo

Há um preconceito difuso segundo o qual o desempenho de lugares políticos de topo implica uma sólida bagagem cultural. Os políticos estão conscientes desse facto, e guardam-se, se inquiridos na silly season - um clássico - sobre o que andam a ler, de dizerem a verdade (por exemplo: olhe, menina, eu, tirando os jornais e relatórios ou memorandos de serviço, faz anos que não leio a ponta de um corno). Invariavelmente referem seja uns clássicos da literatura, seja os romances da moda ou, para os mais afoitos ou que sobraçam uma das pastas da economia e das finanças, um ou outro trabalho do último economista que descobriu o segredo do crescimento económico, ou do último sociólogo que analisou as causas da pobreza.

 

O jornalista não aprofunda, por delicadeza ou, mais provavelmente, porque também não leu; o consumidor do jornal, ou espectador, fica confortado no seu respeito pela personagem; e o ritual cumprido com geral satisfação.

 

Se a pergunta for sobre filmes, ai!, que ficaram encantados com a Fulana, ou Sicrano, cujos desempenhos foram superlativos no filme xis. E a gente acredita, que não oferece dúvidas o genuíno interesse que tem pela sétima arte uma absurda quantidade de gente que ignora as outras seis.

 

Os deslizes nesta área, se apercebidos, podem causar grandes danos: os famosos concertos para violino, de Chopin, desqualificaram Santana Lopes como não o fizeram posteriormente as trapalhadas que arrumou para a constituição do seu fugaz governo.

 

(Se bem que, sobraçando a pasta da Cultura, o lapso tenha ficado ao nível do daquele ministro da Marinha, que Eça inventou, e que localizou Moçambique na costa ocidental de África).

 

Sem este respeito pela cultura um político que se preze não vai longe, a menos que se louve, pelo menos, numa cátedra, caso em que os disparates são ignorados: Cavaco nunca se deu ao trabalho de arranjar quem lhe escrevesse os discursos, e nem por isso as xaropadas em economês através das quais sempre veiculou as banalidades que imagina serem o nec plus ultra da economia, da gestão e dos destinos do país deixaram de ser objecto do previsível aplauso da chamada direita, do ódio das esquerdas e do respeito daquela massa informe de cataventos a que se chama o centro.

 

Tudo isto é um equívoco. César foi um general ilustre, um político brilhante, o verdadeiro fundador do Império, antes de Augusto, e escritor de mérito; Marco Aurélio imperador e filósofo; Churchill estadista, historiador e escritor; e, muitos furos abaixo destes exemplos, também entre nós há homens de cultura que chegaram a lugares de relevo na carreira política - Teixeira Gomes, por exemplo, que foi presidente da república, ou Oliveira Martins, ministro. Mas estas, e outras, são as excepções: Reagan, que passa, possivelmente com boas razões, por ser um dos melhores presidentes que os EUA tiveram, aterrorizava os assessores, quando falava de improviso, por causa da sua prodigiosa ignorância, que o podia levar a cometer gafes em Geografia ou História; e, se inquiridos sobre Newton os chefes de Estado dos 28 países da UE, imagino sem esforço que boa quantidade diria que era um famoso ponta-de-lança, ou inventor de qualquer coisa eléctrica.

 

Na realidade, o político que deixa marcas tem um pequeno núcleo de ideias assentes sobre o seu tempo, o que fazer para modificar as coisas no sentido que acha desejável para a comunidade, e o que o futuro comporta, de ameaças e oportunidades; o resto são circunstâncias e tática.

 

Sucede que estamos em campanha para a eleição do Presidente da República. E mesmo que o lugar seja largamente cerimonial, e ainda que o que nos interessa para o nosso futuro dependa hoje muito mais de gente que nem conhecemos nem elegemos, porque são estrangeiros, do que do marmelo que vai ocupar Belém, quem não tiver vocação para abstencionista, como eu, tem que fazer uma escolha.

 

Recomendam-me Marcelo. O próprio, parece-me, é que não se recomenda.

 

Estaria disposto a perdoar os livros que aconselha, e dos quais com certeza não leu senão a badana, porque levo à conta de vaidade ingénua, e homenagem ao espectador iletrado e por isso susceptível de ser impressionado, esse afectado amor à leitura. E tenho a certeza de que não leu porque não tem tempo, nem, se tivesse, lhe faço a injúria de imaginar que apreciaria o lixo que promove.

 

Marcelo ama os pobres, que quer beneficiar, os ricos, que não quer prejudicar, os remediados, que quer promover, os velhos, que respeita, os novos, que compreende, os de esquerda, que não são menos cidadãos que os outros, os de direita, dos quais está mais próximo quando não está afastado, e a todos oferece o seu afecto. E também isto lhe perdoo porque quem ama toda a gente não ama ninguém, e realmente o amor presidencial só não é uma figura de retórica para os filhos, se os tem, para a mulher, se for casado, para os parentes chegados, se se der com eles, e para os amigos, se os conserva.

 

Sobre a União Europeia, o Mundo, o Serviço Nacional de Saúde, o destino do Braga e a forma como vai decorrer o Campeonato Europeu, ou o problema dos refugiados ou do Estado Islâmico, podemos estar certo que dirá coisas simpáticas, esperançosas e inócuas - exactamente como um João Semana bondoso, perorando aos basbaques no café da aldeia, ao fim de semana.

 

No concreto, e sobre o múnus da presidência, Marcelo diz nada. Por exemplo: quando o regime costista der de si, porque o PCP já espremeu o que havia a espremer, ou porque as contas derraparam, ou por outra razão qualquer, faz o quê?

 

Promove o consenso, ora - aquilo é o campeão dos consensos. E esta palavra sensata e mágica é o véu com que cobre não a ambição, que lhe perdoaria, mas a vacuidade, que lhe suspeito e pode ser perigosa.

 

Marcelo é uma incógnita: apesar de se oferecer, anos a fio, à curiosidade pública, e de fascinar uma larguíssima corte de seguidores com os seus inegáveis dotes de comunicador, ninguém se lembra de uma ideia original, um dito particularmente agudo, uma tese controversa, um entendimento claro sobre o que deseja para o país a mais de um ano, o que acha sobre o futuro da União Europeia, até mesmo o que pensa sobre a nossa história das últimas décadas, e porque estamos como estamos - nada.

 

É brilhante - também as lantejoulas. E porque suspeito que o Presidente da República será chamado a tomar decisões que não consistirão apenas na escolha dos peitos onde vai dependurar medalhas, ou dos lugares que vai honrar com os seus discursos de circunstância, e sem saber por onde vou - sei que não vou por aqui.

publicado por José Meireles Graça às 15:56
link do post | comentar
6 comentários:
De chico lamurias a 14 de Dezembro de 2015 às 13:35
Tem aqui um belíssimo texto. Agudo o sufiente para perfurar e grave o suficiente para arrasar ideias pré fabricadas.
Eu que, sem grandes proezas de raciocinio, pretendia votar Marcelo por simpatia, mas também por falta de alternativa, fiquei de pé atrás.
Ainda assim continuamos com a falta de alternativa.
De maria augusta duarte a 14 de Dezembro de 2015 às 13:58
Pois é, em que ficamos?
Votamos ou não votamos?
Votar é uma vitória porque tantos lutaram e deram a vida.
Entao temos de votar. Não sabemos em quem e inventamos texto literário muito bem escrito em que acabamos por dizer. Só sei que nada sei.
Porquê dar um passo atrás?
Para votar em quem apenas consegue criticar os opositores? Pois eu sei em quem vou votar.
MARCELO.
De José Meireles Graça a 14 de Dezembro de 2015 às 14:07
Uma querida amiga minha que, discordando, gostou do texto, prometeu que, se tiver tempo, defenderá conclusão oposta. Quem sabe nos convence...
De Fersilva a 14 de Dezembro de 2015 às 13:51
Eu, que sou somente povo, não tenho dúvidas. Voto Sampaio da Nóvoa.
E gostei de quase todo o texto, só de um pequeno detalhe, que é revelador da sua área política, não apreciei.
De onde tirou a certeza de que o governo do A. Costa, vai dar de si, seja qual for a razão ? Tem alguma bola de cristal, ou do que deseja, fez futurologia ?
De José Meireles Graça a 14 de Dezembro de 2015 às 14:11
Tenho realmente uma bola de cristal, Fersilva. E faço futurologia, eu e o Bruxo de Fafe.
De Tiro ao Alvo a 16 de Dezembro de 2015 às 21:43
Todos os governos dão de si, Fersilva; até se costuma dizer que as eleições nunca são ganhas, antes que são perdidas - por quem está no poder, entenda-se.
Portanto, o governo do Costa não vai ser excepção, faltando apenas saber quanto tempo durará. Por mim penso que durará enquanto houver dinheiro, quer nos nossos cofres, quer o obtido por empréstimo, o mesmo é dizer que logo que se acabe o pecúlio que recebeu do governo anterior e quando os nossos credores nos fizerem um manguito, o Costa e o seu governo caiem imediatamente. Tem dúvidas?

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Ainda bem que o leio (de volta).Andava a matutar s...
O importante é que a permissão não contitui uma ob...
Eu fui bem educado por meus Pais e pelos meus Prof...
Confesso que não entendo o que o surpreende em os ...
O seu comentário é muito importante para nós. Mas,...

Arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

universidade de verão

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter