Sexta-feira, 5 de Junho de 2015

Médicos

O nosso esqueleto tem, em cada anca e lados do rabo, umas engenhosas engrenagens com cardans, braços de suspensão, rótulas, camisas, lubrificantes, amortecedores e uma parafernália de tudo o que a mecânica, a hidráulica, a pneumática e outras disciplinas das engenharias já inventaram e têm ainda que inventar.

 

Do lado direito, dói-me - há muito.

 

Por isso fui ao médico - um reumatologista. Andei, em meias, nas pontas dos pés, até à parede. E regressei nos calcanhares, após o que, estendido na marquesa, o clínico fez-me uma data de manipulações com os pés e as pernas, lembrando o extinto twist, que aliás nunca dancei, sequer de pé, enquanto ia inquirindo se e onde doía.

 

O diagnóstico veio, tentativo: inflamação do nervo ciático, o qual, maldito, passava por aquele ponto do rabo em que, quando sentado, precisamente me doía.

 

Era, sem surpresa, preciso fazer uma ressonância à coluna: não há hoje diagnósticos sem meios auxiliares.

 

À saída murmurei, para ouvidos refractários às minhas teorias, porque respeitadores de autoridades e doutorices, que examinar a coluna por causa de dores no rabo, sem examinar pelo mesmo processo o dito, era coisa de imbecil.

 

A ressonância consiste em meter as pessoas, deitadas, imóveis, num tubo, e mergulhá-las no ambiente sonoro de uma emboscada da guerra do Vietname, mas em filme, porque juntamente com o barulho das metralhadoras se ouve, em fundo, uma música supostamente tranquilizadora - por espaço de 20 minutos.

 

A simpática operadora que comandava as operações julgou útil recomendar-me, por interfone, que tinha que me acalmar, por estar, segundo ela, "demasiado nervoso". Com o louvável propósito de não fazer subir a tensão do ambiente, abstive-me de lhe significar que o que talvez pudesse ter efeitos positivos no estado da minha seria a possibilidade de lhe dar com o tubo na cabeça, mas bastou esta consoladora imagem para que o mundo serenasse e o exame pudesse prosseguir.

 

O relatório veio, passados dois dias, e, traduzindo livremente do sânscrito em que estava escrito, era de que a minha preciosa coluna estava como uma das do Partenon, após a explosão do paiol turco, lá dentro guardado, que o tiro de venezianos inimigos detonou.

 

De novo no reumatologista, este prescreveu, em relatório que endereçou, em envelope fechado, ao "distinto colega" fisiatra, exercícios daquela especialidade, juntamente com umas pílulas a tomar à razão de uma por dia durante um certo tempo, duas no período seguinte, e novamente uma a final, para efeitos de desmame.

 

O fisiatra, já na minha terra, fez um exame igual ao que já havia experimentado, e elaborou um programa, que segui diariamente, durante duas semanas, no essencial umas massagens e uns exercícios. Destes, um com elásticos fazia doer. E fui dizendo para os meus botões que talvez o que arde cure, mas a ardência não tinha que durar o resto do dia - para o diabo com a fisioterapia.

 

Neste entretanto, numa noite de insónia, li a bula do medicamento. Era uma coisa para epilépticos, e a lista das contra-indicações tinha mais artigos que o Código da Estrada, entre as quais uma relativa a, digamos, líbido, que por si só reclamava que o princípio activo fosse encarado com a maior reserva. Ainda acabei o frasco, só porque não sou de deixar as coisas a meio, mas de benefícios - nada. E de efeitos secundários também não, o Senhor seja louvado.

 

Alguém me recomendou um neurocirurgião. E numa clínica de neurologia marquei consulta, com tanto azar que houve ali um mal-entendido e acabei nas mãos de um osteopata, que fez o exame do costume, recomendou uma palmilha, e, ao longo de sessões semanais, três, salvo erro, pôs uma agulhas e uns unguentos, que não fizeram mal nem bem. Razão por que me passou para o colega neurocirurgião, parece que professor da especialidade.

 

Este jovem, simpaticíssimo, foi de parecer, examinando a ressonância, que, como a dor era perfeitamente suportável e não me inibia na minha capacidade de andar, não recomendava cirurgia mas paciência e, ocasionalmente, um anti-inflamatório. E como tivesse notado um maço de tabaco que aflorava no bolso da minha camisa resolveu ministrar-me uma consulta anti-tabágica, por espaço de um quarto de hora, mesmo depois de informado que nunca havia tentado, nem fazia tenções de tentar, deixar de fumar.

 

Fui então para a acupunctura, numa japonesa. E lá andei, à razão de uma sessão por semana, durante três ou quatro. A coisa proporcionava bem-estar, durante algumas horas, e os punaises que me ia deixando pelas costas, em número crescente, não incomodavam, e poderiam até, nas praias, excitar alguma curiosidade. Mas de cura - nada.

 

Razão por que resolvi consultar um ortopedista que me indicaram, homem das arábias para casos destes. Este, feito o exame da praxe, concluiu que "ciática não lhe parecia". E - ó surpresa! -mandou fazer uma ressonância ao sítio em que doía e, entretanto, tomar umas pílulas que obraram maravilhas.

 

Veio o resultado, redigido na língua morta indo-europeia do costume, e pela infraestrutura daquela rotundidade carnuda a coisa está feita num oito: começo de artrose e não sei quê.

 

Solução? Nenhuma - o caso não tem gravidade que justifique operação. E o medicamento? Cuidado, é um anti-inflamatório, perigoso para o estômago e os rins, não se pode tomar por sistema.

 

Sucede que a minha posição de conforto é de pé ou deitado. E não devia ser porque, sentado, a articulação é menos esforçada. Porquê? Ora, já se vê, por causa da ciática que não tinha.

 

Antes da Clínica de Pamplona, ou da Mayo, vou ainda marcar consulta noutro especialista nacional, um alergologista. Parece-me que estou com uma outra doença, alergia a médicos.

 

Receio que também não tenha cura.

 

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publicado por José Meireles Graça às 18:05
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2 comentários:
De Maria João Marques a 9 de Junho de 2015 às 22:28
Não entendo: e ainda não tentaste o teu amigo, o bruxo de Fafe?
De José Meireles Graça a 10 de Junho de 2015 às 00:42
Não se deve, por razões deontológicas, consultar amigos, Maria João. Não tens por acaso uma amiga feiticeira?

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