Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Meia dúzia de doenças

Não me qualifico: tenho volta e meia umas cutículas à volta das unhas, que é preciso remover com a ferramenta especializada que se usa para aparar as ditas; em havendo mudanças bruscas de tempo, sobrevém um aumento do exsudato nasal; e as dores de cabeça são frequentes, em particular quando tenho muito que fazer, e quando não tenho nada.

 

Faltam portanto três. Sofresse eu de reumatismo, diabetes e asma e, em conjugação com aqueles acima referidos males, já tinha direito a um gestor de saúde, grande benefício reservado a doentes com "mais de cinco" patologias crónicas.

 

"Estima-se, a nível internacional, que cerca de 6% da população acumule mais de cinco doenças crónicas. Assim, em Portugal seriam necessários cerca de 7500 gestores nos cuidados de saúde primários, se cada um ficasse com cerca de 80 doentes".

 

7500 gestores é uma ridicularia. E como estes funcionários se encarregarão da supervisão do doente, estes poderão ir praticando yoga nos intervalos das marcações para o médico de família, no Centro de Saúde, o de Medicina no Trabalho, se o felizardo tiver emprego, o especialista, se a doença crónica não estiver, como quase nenhuma está, ao alcance das luzes do clínico geral, e o parecer do supervisor, que fará um acompanhamento personalizado, com o propósito de "controlar o desperdício de recursos", não se percebe se incluindo também no hospital, onde o paciente se registou entretanto, por via de esgotamento.

 

Ou seja, o doente passa a ser agente de informação para efeitos de controlar o despesismo médico, uma inovação que gente supostamente na plena posse das suas faculdades admite como positiva.

 

Isto a julgar pela notícia. Quem quiser conferir para ver se o jornalista interpretou bem o assunto pode - eu não tive coragem - ir ler o Relatório do Grupo de Trabalho, um mastodonte com 154 páginas de intragável palavreado. E gente boa pode inclusive dizer de sua justiça, dado que o documento está generosamente aberto à discussão pública, admitindo-se, como se diz na conclusão, "ligeiras alterações".

 

Eu sugeriria uma grande, que seria a tradução para português.

 

A coisa nasceu de um despacho do Secretário de Estado Adjunto do ministro da Saúde. E - ó surpresa! - quem é o ínclito governante? Pois nem mais do que o Savonarola do tabaco, do sal e do açúcar, Fernando Leal da Costa. Ciente desta informação, e pensando melhor, nem é precisa a tradução: o melhor é rasgar tudo.

publicado por José Meireles Graça às 23:07
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