Sexta-feira, 3 de Março de 2017

Milagre da multiplicação da asneira

Não pareço um terrorista islâmico, não me ocorreria apresentar-me num órgão de soberania trajado de camiseta da feira de Espinho, não acho que o confisco da riqueza do senhor Bill Gates ou Alexandre Soares dos Santos tivesse qualquer benefício para os americanos ou os portugueses, não desejo impedir, seja por que forma for, que qualquer democrata, ou comunista ou fascista (mesmo que seja um genuíno, não apenas as pessoas meramente de direita que são assim designadas) emita livremente a sua opinião, não acho que as pessoas pobres tenham um par de asas nas costas e as ricas cornos e rabo, não tenho inclinação para ser generoso com o que não me pertence, não sou fiel de uma seita com livros sagrados, santinhos e crenças lunáticas, não tenho uma concepção determinista do processo histórico nem uma visão conspiratória do mundo e não defendo doutrinas responsáveis invariavelmente por miséria e opressão no presente e por quantidades recorde de mortos no passado.

 

Ou seja, não sou comunista. E como também não sou ingénuo não acho que os comunistas sejam adversários - são inimigos. Inimigos porque enquanto defendo para eles a mesma liberdade de que gozo, e os mesmos benefícios de que usufruo, ou maiores, se a eles tiverem tido acesso sem crimes, a um pobre diabo como eu seria negado, no mínimo, o exercício da profissão e da opinião na sociedade deles. Isto não exclui que, pessoalmente, possa ser amigo de comunistas (já fui amigo de um que, incidentalmente, se veio a revelar um patife) mas sem ilusões: o bem maior, para eles, é a sociedade comunista, e em nome dela não hesitam, se for necessário, em sacrificar qualquer noção de decência burguesa, incluindo a amizade e seus deveres.

 

Portanto, não tenho nada de comum com Miguel Tiago. É por isso com grata surpresa que concordo com ele. Não no sentido de Teodora Cardoso ter dito algo que não subscreva - pelo contrário, a senhora está coberta de razão - mas por me parecer que o Conselho de Finanças Públicas não deve, enquanto organismo na esfera do Estado, existir.

 

Não deveria existir, tal como o Conselho Permanente de Concertação Social ou a generalidade dos organismos de supervisão ou consulta, quando sejam suportados pelo Orçamento de Estado.

 

Portugal não tem economia para tanto Conselho, Comissão, Observatório e a miríade de organismos que vivem sentados à mesa do Orçamento. E a circunstância de Teodora Cardoso ser uma senhora sensata e competente, com idade para ser independente (a independência é mais fácil, em Portugal, para quem não se importar de não ter lugar futuro se no exercício do seu mandato ofender os poderes do dia), não nos deve fazer esquecer que hoje temos uma Teodora mas, amanhã, teremos um desses economistas yes-man, que são a variedade corrente, ou, pior, um maquiavel de trazer por casa, se na nomeação Marcelo tiver a sua néscia palavra a dizer.

 

Vem pois aos meus braços, Tiago, se juntamente com a aposentação da senhora quiseres a extinção do organismo (mas, já agora, toma banho e põe uma camisa lavada, que os fachos, às vezes, são uma gente muito dada a manias).

publicado por José Meireles Graça às 23:22
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1 comentário:
De Jose Domingos a 3 de Março de 2017 às 23:40
Estamos cheios de comensais, os que se sentam á mesa e os que se contentam com as migalhas.
Depois temos os outros, a que ninguém passa cartão, excepção ao jornalixo nacional e respectivos moços de fretes, que não distinguem um talher de carne de um de peixe e que pelos vistos, não toma banho.

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