Sábado, 25 de Janeiro de 2014

Mirando o problema dos Miró

Houve um tempo em que um retrato pintado servia como testemunho do prestígio do retratado ou sua família; ou, mais prosaicamente, antes da invenção da fotografia, para inteirar o distante potencial noivo das feições do estafermo que iria garantir a descendência de uma linhagem que se pretendia, ou era, ilustre (ignoro se há casos em que fosse ao contrário, isto é, em que a família da noiva mandasse vir o retrato do marmanjo candidato a garanhão).

 

A paisagem, a alegoria, as vidas dos santos, os passos da Paixão, as cenas bíblicas, os cenários de guerra, os heróis a cavalo ou a pé, a mitologia clássica a partir do Renascimento, outros temas ainda, punham aos pintores três tipos de problemas: i) Agradar ao nobre ou clérigo patrono, ao burguês também quando este começou a fazer aparecer a sua cabeça empreendedora e nova-rica, a partir do aumento do comércio e da riqueza que os Descobrimentos abriram; ii) Actualidade técnica: na perspectiva, nos pigmentos e misturas, nos temas, houve evolução, o que quer dizer inovadores, seguidores, contestatários e escolas; e iii) Mensagem: As Meninas de Velazquez, ou os Painéis de S. Vicente, por exemplo, alimentam intermináveis polémicas sobre as reais motivações da representação daqueles monstrinhos, ou quem são exactamente as personagens que Nuno Gonçalves retrata, e porquê aquelas e não outras.

 

Os grandes pintores somaram sempre à originalidade e à qualidade técnica, para os que veem o que lá não está, intenções ideológicas, ou religiosas, ou práticas, segundo as lutas e os ares do tempo. O que significa desde logo que ninguém entende nada de pintura sem entender nada de História - condição portanto necessária, ainda que não suficiente.

 

Uma multidão de factores influenciou o aparecimento, em finais do séc. XIX, da pintura moderna. Infelizmente, o movimento mais conhecido ficou a dever o seu nome a um termo, impressionismo, desejado como pejorativo por quem o cunhou, um crítico de Arte. E como os pintores polémicos da época foram objecto de grande baile por parte dos especialistas, mas são hoje, possivelmente, os de maior sucesso na história da pintura, seria de esperar que o público tivesse ficado vacinado contra a opinião de entendidos.

 

Mas o impressionismo era ainda figurativo, apenas queria que o natural e o simples aparecessem transfigurados pela luz, coisa que o público podia entender. Daí para a frente e, creio eu, sob o aguilhão da fotografia, que veio concorrer no espaço da representação do real, a pintura evoluiu para manifestações cada vez mais conceptuais, sem nenhuma relação com nada que não fosse uma interpretação pessoalíssima do artista e, crescentemente, do crítico. Este pretende traduzir, para o público, o que o público não entende.

 

Este terreno presta-se a toda a sorte de trapaças, e destas a mais evidente é a flagrante gratuitidade da maior parte das originalidades pictóricas, e a generalizada vacuidade da maioria dos críticos: dizem coisas herméticas que, espremidas, não significam nada.

 

Encurtemos, que nem sou qualificado nem estou disposto a abundar no tema. Sobre a polémica Miró e as mais de 6 dúzias de telas que a massa falida do BPN detém, não concordo com a petição dos 8100 apreciadores: tivesse eu herdado algum dos estropícios e passá-lo-ia oportunamente a patacos. Mas também não concordo que a Christie's, ou qualquer outra casa, vá leiloar as telas às resmas - isso não pode senão fazer cair o preço. O que devia ir a leilão era uma tela; e as restantes, uma a uma, com intervalo mínimo de cinco anos. Ficava toda a gente contente: o PCP, os Verdes, o Bloco, os proponentes da petição, podiam dizer que salvaram a quase totalidade destas preciosidades, essenciais para a Cultura ou lá o que é; o Estado, baseado no valor pelo qual a obra fosse adjudicada, podia sempre dar as outras de garantia anti-calote; se os entendidos tiverem razão, Miró não pode senão valer cada vez mais; e, mesmo que haja, como há, um certo retorno ao interesse pela pintura pré-moderna, não é previsível que as luminárias do séc. XX sejam postas no seu lugar nos próximos 40 anos.

 

E os Miró, onde guardá-los? Uma parte ficava bem nos Passos Perdidos - ele há senhores deputados que gostam muito de Arte, e Pintura, e assim - se perguntados, todos dirão que sim senhor, a Arte toca-os muito; no Palácio de Belém cabiam alguns -a nossa Primeira Dama é intensamente cultural, e o nosso Presidente, então, nem se fala; no Centro Cultural de Belém, onde o comendador Berardo expõe meia dúzia de coisas boas e um extenso acervo de lixo, ficavam bem mais alguns; e o resto podia ir para as caves do Banco de Portugal - como metade do ouro que lá havia já voou não há problemas de falta de espaço. 

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publicado por José Meireles Graça às 23:10
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