Domingo, 1 de Junho de 2014

Na praia tu e eu

Não estamos sós/ A sombra de outro alguém/ Vive entre nós/ Não nunca o saberás/ Mileeeena.

 

Cantava o saudoso Conjunto João Paulo, famoso por ter descido à cidade com o propósito inexplicável de dançar hulli-gulli, em pleno fássismo.

 

Mas não foi a Milena que se intrometeu no seio deste casal em gozo de um fim de semana prolongado na Meia-Praia, em Lagos, mas sim um senhor tenente da Marinha, em missão de pré-inspecção a uma área concessionada de guarda-sóis.

 

Os referidos, constituídos por um cone de colmo assente num tronco, têm a configuração que há anos lhes conheço; o empreendimento é o mesmo que frequento há muito tempo; e a simplicidade reina - um rectângulo de passadeiras em ripas de madeira, a primeira, do lado maior, a contar da estrada, antes do primeiro renque de guarda-sóis uns dois metros, a outra entre o penúltimo e o último renque, do lado do mar - um arranjo judicioso para evitar que, nos meses de canícula, os veraneantes escaldem os pés, que a areia queima.

 

Infelizmente, não tive direito à tradicional espreguiçadeira, das quais havia dezenas cuidadosamente empilhadas junto à casota do concessionário, mas não quis interromper a animada conversa com o trajado à civil que vim a saber ser o mencionado oficial.

 

Quando este, de bloco-notas na mão, deu de frosques, é que fui inteirado da sua excelsa qualidade. E fiquei a saber que não, não senhor, não podia usar a espreguiçadeira porque só dali a dois dias é que começava a “época balnear”; que o homem embirrou com a colocação das placas da área concessionada, que não estavam bem onde sempre tinham estado, mas sim meio-metro para o lado; que a passadeira na parte mais perto do mar tinha que ser removida porque ele não achava bem; que ignorar os dizeres da autoridade estava fora de questão porque as multas eram terroristas e eles têm a caneta ligeira; e que tinha insistido com a pobre funcionária para ela me vir dizer que não podia estar debaixo do guarda-sol, porque ainda não era a altura.

 

Começaram bem, as mini-férias: se a funcionária, prudentemente, se não tivesse abstido de me inquietar, as probabilidades de o graduado se ver tratado de burro seriam mais altas do que as do edil Costa conquistar a curto-prazo a cidadela do PS - eu tenho esta fraqueza, e a franqueza, de embirrar com abusos de autoridade e o exercício cretino dela.

 

Tudo acabou bem, ainda que sem espreguiçadeira, da qual aliás não preciso. E dei comigo, envergonhadamente, a ter saudades da praia do antigamente, onde a autoridade consistia vagamente num cabo-de-mar trajado de branco que passava de longe em longe, preocupado com o jogo da bola junto ao mar e os barcos perto da praia, e que deixava os concessionários em paz, por não haver minuciosos regulamentos, congeminados por inúteis, redigidos por trapalhões e interpretados por oficiais de marinha que percorrem os areais a pé para exercer desastradamente a autoridade que não exercem nos barcos que não há.

publicado por José Meireles Graça às 12:09
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