Quinta-feira, 13 de Outubro de 2016

Não entreguem o Nobel da Medicina ao Sérgio Godinho

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Já vi por aí apelos a dar o Nobel da Química ao Sérgio Godinho, mas não concordo, e vou-vos dizer porquê.

Antes do 25 de Abril eu tinha todos os discos do Sérgio Godinho, que eram dois, era ele um dos meus dois nacional-cançonetistas predilectos, sendo o outro o José Mário Branco, que ainda continua a ser, e tinha outros dois discos, estes que eu aconselho sem moderação a qualquer pessoa, e não estou a brincar, o Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de 1971, que tem a mais bela canção jamais cantada em Português, a Queixa das almas jovens censuradas com poema da Natália Correia, e O charlatão, canção premonitória da ascensão do nosso primeiro-ministro actual a primeiro-ministro, e o Margem de certa maneira, de 1973.

Logo nas semanas a seguir ao 25 de Abril organizaram-se, não me lembro se pela Emissora Nacional, uma série de Cantos Livres que juntavam cantores proibidos ou perseguidos pelo anterior regime. Num deles apareceu o Sérgio Godinho, acabado de regressar do seu exílio canadiano. Cantou algumas canções conhecidas, e acabou com um fado, o primeiro que lhe ouvi cantar, e último, com uma letra mais ou menos nesta linha, e cito de memória:

Sou polícia, polícia à paisana, prendo e torturo quem me dá na gana, quem me dá na gana.

...etc... [era sobre um Pide]

Já me chamaram de todos os nomes, de cabrão, filho da puta, de fascista. Cabrão, ainda vá lá, filho da puta ainda passa, mas fascista? Eu que sou um liberal?

...etc... [significava que um Pide era suposto aceitar todas as injúrias, mas negar o fascismo]

[E rematava assim] Sou polícia à paisana, à paisano, e o meu nome é Marcelo Caetano.

Para atalhar razões, o Marcelo Caetano, nessa altura, tinha-se rendido na tarde do 25 de Abril no largo do Carmo, tinha sido preso e enviado para a Madeira a aguardar a sorte que lhe viesse a ser decidida. Não se sabia que destino lhe daria a revolução, e era menos que seguro que não viesse a acabar morto. Era um homem à mercê do destino, e em maus lençóis. E o Sérgio Godinho, de rei na barriga, chamava-lhe filho da puta e cabrão, se bem que procurasse parecer mais liberal que fascista, numa cançoneta. Merdosa. Tão canalha como a galhofa que agentes da Pide terão muitas vezes feito dos homens e mulheres que detinham e cujo destino tinham nas mãos por uns dias. Nunca mais lhe comprei um disco, e, os poemas, só lhos oiço quando algum político rasca como ele os recita em campanhas eleitorais.

E no entanto continuei a comprar discos do José Mário Branco, e recomendo o Ser solidário, de 1982, com a belíssima chulinha Eu vim de longe, eu vou p'ra longe, sobre o desencanto de quem teve um sonho que não se cumpriu, e ainda bem que não, porque o sonho bonito dele seria um pesadelo para todos.

Não, ao Sérgio Godinho eu não lhe dava o Nobel da Paz, dava-lhe um pontapé no cu.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:33
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