Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2015

Não há chatice no novo ano

Hoje os jornais começarão, como é seu direito e necessidade, a encher chouriços com retrospectivas de 2014.

Os de esquerda, isto é, quase todos, falarão do aumento da dívida pública, da austeridade que vai continuar, do desemprego altíssimo, do crescimento dos impostos, de Sócrates, da nova luz que nasceu no Rato, e do sol que desponta em Atenas.

É possível que no Observador, ou aqui e ali, alguém se lembre, além daquelas magnas questões, que o nosso principal problema, a dívida externa, começou a ser resolvido no ano que ontem findou; e que a diminuição do défice, por ter sido obtida sobretudo com impostos, que aliás aumentaram esverdeadamente quando estralejavam os foguetes do Novo Ano, garante que nada está adquirido, e que pelo contrário basta que Costa cumpra um terço do que promete (aumento do salário mínimo, reposição de salários na função pública, aposta no investimento público, redução do IVA na restauração, e incrementos sortidos de quanta ideia pateta anda no ar socialista) para que no horizonte apareça um novo resgate.

Porque, se o governo que está tivesse realmente reformado o Estado, isto é, extinguindo serviços, despedindo funcionários e consolidando pelo lado da despesa, mesmo que temporariamente a agravasse pelo peso das indemnizações, Costa estragaria na mesma, mas a partir de um patamar diferente.

Mas as eleições só são lá para, creio, Novembro. E se eu verdadeiramente soubesse alguma coisa sobre o que se vai passar entre nós, no resto da Europa e no Mundo, estaria diligentemente a tomar precauções para ganhar com a crise - pode-se ganhar com as crises, desde que se saiba quais elas vão ser.

Por mim, agora que duas gerações de patriotas tomaram precauções para que o nosso futuro dependa muito pouco de nós e quase tudo dos outros, a chave da adivinhação está na Grécia: como é sabido, o BE local (confirmar aqui que se trata do BE local) pretende notificar os credores sobre quanto, e como, vai pagar.

Se o Syriza defendesse a saída do Euro, e confirmando-se que ganharia as eleições, a Grécia teria o privilégio de comer erva durante algum tempo, após o que, dependendo de o Syriza continuar a governar, ou de haver novas eleições e o simulacro de direita regressar, se transformaria numa Venezuela sem petróleo ou recomeçaria a crescer.

Mas o extraordinário Syriza quer sol na eira e chuva no nabal: pertencer ao clube sim mas as regras devem ser as dos devedores sobre as dos credores, das maiorias nos países devedores sobre as maiorias nos países credores, e de todos contra a Alemanha.

Pode ser que funcione, durante algum tempo: não há limites para a quantidade de sapos que a burocracia europeísta é capaz de engolir para preservar os seus queridos projectos. A última palavra tê-la-ão os eleitores, no Reino Unido, Alemanha e noutros lugares onde medra a dúvida sobre o edifício do Euro e dos Estados Unidos da Europa, se é que a casa não vem abaixo antes, com o sistema vítima das suas próprias contradições, como se dizia nos saudosos tempos de marxismo.

2015 será o que Deus quiser - mas não parece que Deus queira que seja chato.

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publicado por José Meireles Graça às 14:10
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