Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Não sou de confiança

Recebi com moderada satisfação o resultado das eleições na Alemanha, a mesma que já havia sentido com a subida, ainda que inferior ao esperado, de Geert Wilders na Holanda ou a vitória de Trump. O meu agrado medido, e não esfusiante, vem de o AfD não ter conseguido o segundo lugar, que preencheria melhor o que desejo para a Alemanha e a Europa.

 

O AfD foi o partido que mais cresceu, passou do zero em representação parlamentar a terceira força mais votada. E como não compro classificações apressadas de racismo e nazismo dei-me ao trabalho de ir ver o que realmente defende (por exemplo, aqui), a ver se a histeria que, dentro e fora da Alemanha, sublinha o resultado eleitoral, corresponde a alguma preocupação razoável que devamos ter.

 

Há alguns dirigentes que têm sobre o nazismo concepções revisionistas no mínimo equívocas, que o partido oficialmente não subscreve; e pelo menos um já proferiu declarações obscuras que podiam ser interpretadas como traduzindo a ideia de que a condição de negro implica alguma inferioridade genética, que o partido rejeitou.

 

De resto, como será talvez normal num partido recente e com um crescimento explosivo, a liderança é esponjosa e pouco firme, por ser uma coligação de personalidades competitivas de entre as quais não surgiu ainda um líder com autoridade para calar as vozes desalinhadas, coisa que aliás só costuma suceder no poder, como nós, mais do que outros eleitorados, bem sabemos.

 

O partido nasceu por ser contra a moeda única e o federalismo, e manifestou-se duramente contra o apoio à Grécia, antes e mesmo depois do Syriza dar a grande cambalhota que deu e passar a defender a mesma coisa que a direita local defendia. E veio depois, com o insensato abrir de portas à imigração muçulmana, do Oriente Médio e de África, a adoptar a causa anti-imigrantes.

 

Definem-se portanto mais pelo que rejeitam do que pelo que defendem. Daí a consequência de quem, como eu, rejeitar as mesmas coisas, os ver automaticamente com simpatia.

 

Uma simpatia interesseira, digamos assim: que faz tempo que os dirigentes da União contam com uma fuga para a frente, liderada pela Alemanha, para construir uma federação que integre de tal modo os Estados que o abandono seja na prática impossível, garantindo a "legitimidade" e a inamovibilidade da casta apátrida cujo lamentável líder, no "discurso sobre o estado da União", disse sem ambages ao que vinha.

 

De fuga para a frente estamos conversados, mesmo que a chanceler venha a fazer uma coligação que inclua o SPD e o patético Schultz. É como diz a própria chanceler: "Queremos reconquistar os eleitores da AfD, resolver problemas, tendo em consideração as suas preocupações e receios..."

 

E em Portugal, acha-se o quê? Há, que eu veja, cinco grupos:

 

O dos colegas de Juncker, europeístas furiosos que dirão e farão tudo, e o contrário de tudo, para um dia viverem nos Estados Unidos da Europa, de preferência com um lugarzinho ao sol do funcionalismo europeu, ou à sombra de uns subsidiozinhos para promover o investimento, ou a investigação, ou o combate às alterações climáticas, ou qualquer outra coisa, desde que não precise de mercado para sobreviver. Deste grupo faz parte, com diferenças de grau, o governo em peso, e boa parte da oposição do CDS e do PSD, excepto quando pertencem aos grupos seguintes;

 

O dos que quereriam uma Europa diferente, cheia de solidariedade e passarinhos a voar, com os países de contas sãs a deixarem de as ter para compensar os despesistas. É um grupo numeroso, e um bom exemplo desta variedade é Viriato Soromenho Marques, por exemplo aqui, também sobre o mesmo discurso. Dele fazem parte estrelas da comunicação social como Daniel Oliveira ou Pacheco Pereira, este último dependendo de quais foram os últimos autores que leu. E nestas águas navega também o BE, nos dias em que não está ocupado a fracturar a sociedade, a ver se com gesso e cicatrizes faz um homem novo e uma mulher nova, além de vários seres intermédios;

 

O das pessoas sensatas que veem com clareza os vícios do Euro e da União e não conseguem recomendar uma fuga para trás, de cujos problemas recuam com horror, nem defender claramente uma fuga para a frente, cujos perigos não ignoram. O melhor exemplo é Vítor Bento, que se deu ao trabalho de esmiuçar o discurso de Juncker, aqui e aqui;

 

O dos comunistas, que não desejam nem esta União nem nenhuma outra, nem sequer a CEE, mas querem evitar que o barco abane muito para já, ocupados que estão a minar o aparelho de Estado enquanto a geringonça deles depender;

 

O dos interesseiros e medrosos que constatam que o país, fora da intervenção estrangeira que as falências impuseram, é gerido de forma irresponsável. São europeístas por acharem que o nosso eleitor, viciado que está na despesa do Estado que lhes compra a fidelidade, precisa de ser enquadrado pela disciplina do norte da Europa. A este grupo pertence, creio, a maioria dos meus amigos.

 

Então, e eu? Ora aqui é que eles, os meus amigos, se vão rir. De momento, não defendo nada porque há incógnitas. E destas a principal é saber como vai ser o resultado das próximas legislativas e, se a geringonça se desfizer porque o PS dispensa muletas, ou porque o PSD ganhe, o que fará o novo governo.

 

Para já, como é sabido, temos a burra nas couves: o turismo e a retoma nos mercados nossos clientes disfarçam a engorda e a minagem do Estado, o que significa que na próxima crise teremos um Estado e uma dívida pública maior, mesmo que menor em relação ao PIB, para uma economia que nem investe nem tem bancos que não sejam cancros, nem tem poupanças, nem mesmo terá a agilidade que as pequenas empresas vêm demonstrando porque entretanto a comunistada criou os meios para lhes dependurar ao pescoço as pedras que são o seu preço por um sindicalismo bem comportado e uma rua silenciosa.

 

Quem está à espera de uma explosão, que tem por distante mas inevitável, não a precipita se souber que pode, com sorte, estar um pouco mais protegido.

 

Pode ser que o PS perca; e pode ser que, ganhando, a pressão europeia seja menos parecida com a versão Draghi e mais com a da chanceler no tempo em que a viam como um novo Hitler.

 

Donde, afinal, estou com os meus amigos. Não estou mal, mas atenção que não sou de confiança.

publicado por José Meireles Graça às 23:49
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