Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

O ano de 2016 em revista

Dizem os teóricos da ciência financeira, que os teóricos da ciência financeira, gente circunspecta que vive imersa em números, por vezes encontram modos de escapar à aridez dos números recorrendo à ironia e ao humor sem sacrificar a objectividade que os obriga, que as melhores e mais precisas previsões antecipados da evolução da economia americana são as dos cantoneiros de Manhattan, que vêem no lixo que recolhem se há tendencialmente mais predominância de garrafas de champanhe ou de latas de salsichas.

Outros dizem que a melhor aferição da confiança que o mundo deposita num país e na qualidade e seriedade das suas instituições, nomeadamente o governo, que tende a ser uma instituição determinante para a sua prosperidade ou empobrecimento, é dada pelos juros da dívida pública desse país, ou seja, quanto é que os aforradores exigem para lhe confiarem as suas poupanças na expectativa de as verem remuneradas e, no fim do prazo contratado, reembolsadas. E quem diz juros, que só são determinados umas poucas de vezes por ano quando há emissões de dívida no mercado primário, diz yields, que são os juros implícitos no preço a que os títulos de dívida são diariamente transaccionados no mercado secundário. 

Não tendo acesso às previsões dos cantoneiros de Lisboa, que a Frente Comum não as divulga, temo-lo no entanto às bases de dados da Bloomberg sobre os yields da dívida pública portuguesa. Qual foi então a apreciação que o mundo fez da qualidade e seriedade do governo de Portugal em 2016? 

2016-12-30 Yields Portugal Espanha.jpg

Apesar de ter dado o melhor de si em 2016, o governo português não conseguiu elevar os juros da dívida pública sustentadamente até ao patamar acima dos 4%, marca mítica que só foi ultrapassada num dia singelo, o dia 11 de Fevereiro. Mesmo assim, são de louvar o esforço investido e os resultados conseguidos, um aumento de 50%, de 2,5% para 3,75%, quando a vizinha Espanha, no mesmo período, se ficou por uma mísera redução de 25%, de 1,8% para 1,3%.

Sem um governo que os fizesse aumentar assim, quem daria ouvidos aos bloquistas, comunistas e outros profetas da insustentabilidade e necessidade de renegociação da dívida, ou por formação ética e cívica meros defensores do calote? Só por si, o aumento constituiu um excelente motivo para o apoio parlamentar entusiástico que lhe concederam, só perturbado por pequenos amuos encenados para os seus mini-eleitorados não perderam a fé nas suas qualidades revolucionárias anti-capitalistas, anti-sistema e, como não podia deixar de ser, anti-dívida.

Já o ano de 2017, quando o governo se vir forçado a, juntamente com os rendimentos devolvidos, começar a pagar aos fornecedores do SNS e a injectar dinheiro na CGD, anuncia-se promissor e, em havendo boa vontade, o céu é o limite. Apertem os cintos e bom ano!

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:41
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