Segunda-feira, 3 de Outubro de 2016

O arquitecto do regime

Há uns bons pares de anos, numa segunda-feira de manhã, a capa de uma revista veio comover a nação que vivia o auge do cavaquismo com euforia. O arquitecto do regime, que fazia projectos milionários para tudo o que fosse eregível, e facturava ao governo muitas dezenas de milhares de contos (e muitas dezenas de milhares de contos ainda são dinheiro, mas naquela altura eram muito mais) por meros ante-projectos de urbanizações a eregir em manicómios deslocalizados para fora do centro da cidade, figura central do jet-set da época, até empresário da noite, era um dos donos do Bananas, e senhor de uma riqueza ostentada sem vergonha, deslocava-se de Rolls, também se dedicava ao cinema amador. O título da notícia era algo como "As loucuras do arquitecto", ou "Pau para toda a obra", já não me lembro bem. Mas lembro-me que, antes da hora de almoço, o jornalismo de investigação que se praticava na era pré-internet nas grandes empresas multinacionais quando havia grandes debates públicos a decorrer já tinha descoberto, na empresa onde eu trabalhava, que, nas Páginas Amarelas, o gabinete do arquitecto vinha na página com o separador "Pronto a Comer", na secção "Projectos de Arquitectura". Nas multinacionais, quando se investiga, investiga-se a sério.

Entretanto o regime mudou, o Cavaco Silva, ou porque não lhe apeteceu, ou porque pensou que ia perder, não se voltou a candidatar a primeiro-ministro, e o cavaquismo acabou e foi substituído pelo socialismo, entremeado com algumas interrupções neoliberais rapidamente postas na ordem pelos socialistas, mesmo quando perdem as eleições. E, com o socialismo, mudou o arquitecto do regime.

Hoje em dia não há peido que se dê no Portugal socialista sem um tripezinho Siza para o segurar, ou um candeeirozinho Siza para o iluminar.

Do museu ao auditório da escola, do bairro de uma grande cidade destruído por um incêndio ao pavilhão de uma exposição universal, vai a todas as que têm promotores públicos, um dia hei-de tentar perceber se por concurso público ou por ajuste directo? se bem que tenha a intuição que mais por este do que por aquele, porque o talento não se leva a concurso. Temos, pois, o novo arquitecto do regime.

Acontece que eu tenho alguma dificuldade em compreender, para usar uma expressão na moda, o que faz de um arquitecto cuja obra é uma pain in the ass para os desgraçados que são forçados a usufruir dela um grande arquitecto, para além da facturação do gabinete?

  • A começar pelos milhares ou milhões de utentes da estação de Metro do Chiado que entram na estação pelo meio e, para apanhar o combóio por baixo de onde entraram, são obrigados a calcorrear toda a estação até às escadas que estão nas extremidades, e fazer o mesmo caminho de regresso no cais...

 

  • ...aos que passam circunstancial ou regularmente nos pátios dos edifícios do Chiado, todos eles em pedra nua cheia de esquinas vivas que parecem lá colocadas para que as pessoas que tropeçam ou escorregam na calçada, que inunda quando chove, e caem, rachem a cabeça ou os ossos...

  • ...aos, e aqui tenho de me felicitar por não ser forçado a ser utente, habitantes dos bairros sociais que, para chegar a casa ou sair, são forçados a usar escadas bizarramente altas, íngremes e sujeitas à intempérie, que parecem colocadas lá apenas para matar os velhotes que os habitam, seja de exaustão, por terem que as subir carregados com os sacos de compras, seja de tropeção nos degraus de cimento, a rebolarem até ao chão de pedra.

A mim que, na arquitectura, me impressionam menos os Pritzker do que o cuidado com "as pessoas" que são condenadas a viver dentro dela, ou a ergonomia, só posso esperar que o regime mude rapidamente, para aparecer um novo arquitecto que nos torne a vida menos penosa e perigosa e mais agradável e segura.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:46
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