Sexta-feira, 24 de Março de 2017

O erro de Dijsselbloem

2'17-03-24 Jeroen Dijsselbloem.jpg

Não me vou debruçar sobre as reacções à metáfora do Jeroen Dijsselbloem (nome escrito por copy&paste, que a cabeça já não dá para memorizar sequências tão longas de consoantes quase sem vogais), que foram tratadas aqui de um modo a que eu não tenho nem consigo acrescentar nada.

Vou apenas procurar abster-me de ser contaminado por elas para tentar perceber o significado exacto do que foi exactamente dito por ele, aliás, um bom ponto de partida para o comentar, se bem que um travão ao reflexo condiciondo que tão bem sabe, principalmente a quem não é mesmo capaz de perceber.

E o que ele disse exactamente foi o mesmo que teria dito se dissesse eu não posso gastar o meu dinheiro todo a comprar a prestações férias em destinos exóticos ou plasmas (pronto, o tempo dos plasmas já passou e agora os LED estão ao preço da uva mijona, quem não se sentir confortável com esta parte da metáfora que encontre um destino de investimento em equipamentos domésticos opulentos mais actualizado) e pedir-lhe de seguida a sua ajuda, ou, eu não posso gastar o meu dinheiro todo a financiar a compra de bancos para lá meter os amigos do governo socialista ou os investimentos que ele considera estratégicos para encher o olho do eleitorado e os bolsos dos amigos e pedir-lhe de seguida a sua ajuda, e o resultado teria sido o mesmo, apesar de as metáforas serem diferentes.

Não poderia, nem com o esforço sobre-humano que o primeiro ministro António Costa faz por pescar eleitores nas águas do Bloco de Esquerda recorrendo a palavras de ordem que lhes são queridas, ser acusado de sexista, racista e xenófobo. Poderia talvez ser acusado de querer manter o povo na mais triste miséria sem poder conhecer in loco destinos exóticos nem impressionar os vizinhos com o flat screen gigante na sala, o que corresponde mais ou menos à definiçao de neo-liberal, ou de querer impedir o banco público de cumprir o seu desígnio de financiar a propaganda, e os amigos, dos governos socialistas sob o lema financiar a economia e, principalmente, as pequenas e médias empresas, o que também corresponde mais ou menos à definição de neo-liberal.

Mas teria despertado exactamente a mesma união nacional de reacções de repúdio, nem que fosse pela interferência, ainda por cima de um estrangeiro da Europa dos ricos, ainda por cima de caracóis e nome insoletrável. Porque não foi a linguagem da metáfora que incomodou os que se sentiram incomodados, foi o facto de ter sido certeira. Não se pode estoirar o dinheiro como se caísse mais dinheiro do céu e, quando se percebe que afinal não cai, ir bater à porta do vizinho para lhe propor estoirar também o dele.

Os países em crise que ele citou na entrevista, ou pelo menos este país em crise, sentiram-se portanto insultados com a metáfora. Em parte, cheios de razão, e em parte sem ter necessariamente razão.

Tiveram razão por, ao terem enfiado o barrete, e de lhes ter servido perfeitamente, o terem acusado de ter tricotado um barrete à medida deles, como se provou nos parágrafos anteriores. Mas, tal como a lei é abstracta e um homicida não pode acusar o legislador de ter criminalizado o homicídio para o tramar a ele, se bem que a lei se lhe aplique perfeitamente, o comentário que recorreu à metáfora proibida também se limitou a enunciar um juízo de valor abstracto de validade universal, ainda que se aplique perfeitamente a esses países. Tivessem evitado gastar mal o dinheiro e não enfiariam o barrete do comentário.

E não tiveram necessariamente razão quando se sentiram atingidos como se ele tivesse dito os países em crise não podem gastar o seu dinheiro todo em agardente e mulheres e pedir depois ajuda aos países do norte, porque ele não construiu a metáfora em torno de uma referência a esses países, mas a ele próprio. Se ele se referiu a ele próprio mas pretendia incluí-los a eles, só ele saberá, e nós também sabemos, mas ele pode dizer o que lhe convier ou preferir e, mesmo sabendo, porque o topamos à légua, não temos provas para o contradizer. Fica a nossa interpretação contra a palavra dele, e em tribunal, pelo menos do tipo de tribunal que é suposto existir em democracias liberais, ou de tipo europeu, como dizia o Álvaro Cunhal quando queria impressionar as jornalistas estrangeiras, dificilmente seria condenado.

Quer isso dizer que, tendo despertado a fúria e a indignação de toda a gente, ou de quase toda a gente, para permitir algum grau de dissidência que provavelmente haverá, e até talvez o escrevinhador destas linhas seja um desses dissidentes, o homem não trouxe afinal lenha para se queimar e acabará por sair ileso deste episódio cujas consequências não passarão do diz que disse?

Não. O homem fez um erro e eu estou em posição de revelar à populaça informações sufucientes para justificar o seu linchamento.

Ele disse eu não posso gastar ... e depois pedir a sua ajuda. É mentira. Ele pode gastar ... e depois pedir a minha ajuda. Tem é que ser suficientemente estúpido para admitir que eu sou um otário que empresta dinheiro a estroinas que gastaram o dinheiro todo em ___________________ (consoante a metáfora, putas e vinho verde, férias exóticas e plasmas, bancos e investimentos estratégicos socialistas), contam com o dinheiro dos outros para o continuar a gastar com a mesma ligeireza, e se for preciso ainda respondem aos que lhes vão perguntar quando regularizam os empréstimos que a dívida é insustentável e têm que lhes fazer um abatimento, ou não recebem mesmo nada. O que corresponde à cultura de calote financeira da maioria parlamentar de sustentação do governo socialista português. Podendo-se, fica provado que, ao dizer que não se pode, o holandês dos caracóis fez uma insinuação falsa e merece, por isso, condenação.

Podem trazer o pelourinho e a lenha, o problema está resolvido e a história pode fnalmente ter um final feliz.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:51
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