Terça-feira, 7 de Abril de 2015

O nada e coisa nenhuma

Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.*

 

A crer no que dizem pacificamente (nemine discrepante - ver aqui, aqui e aqui, de uma extensa lista que José Manuel Fernandes enviou a este e a muitos outros seus leitores) os críticos, com Manoel Oliveira morreu um génio. Devo ser extraterrestre: sempre lhe detestei os filmes, as "críticas" ditirâmbicas dos entendidos, a adoração acéfala de alguns intelectuais - sobretudo franceses e portugueses -, a imensa pedantaria de todo o cão e gato com a mania da cultura, que não ousa imaginar que ali está apenas o que salta à vista, e até as entrevistas à la Mr. Chance, como esta: o homem dizia com simplicidade coisas ou chãs ou incompreensíveis, que o entrevistador se dispensava de explicar ou aprofundar, ficando para os leitores o papel de pategos dos quais se espera que, por não entenderem, hajam de ver o que lá não está.

 

Com excepção de Aniki-Bóbó, Manoel Oliveira sempre fez filmes que passam por obras de arte por serem tão absurdamente chatos que ninguém os faria se não tivesse importantes mensagens para deixar para a posteridade.

 

Ser "chato" ou não não é, evidentemente, critério para coisa alguma: chato é, para muitos, James Joyce; e a maior parte da minoria de pessoas que leem não lê clássicos, e tanto menos quanto mais afastados de nós no tempo - porque as referências não são as mesmas, e falta o conhecimento do meio histórico, e das influências, as sofridas e as exercidas, às vezes até do vocabulário, ausências que podem tornar, e tornam, a leitura chata.

 

Mas a sétima Arte é recente. Não sabemos o que dela a posteridade reterá, e nada, absolutamente nada, é adquirido. Do que podemos estar certos é que não é seguro que as opiniões dos críticos e dos entendidos estejam erradas; e, menos ainda, certas.

 

Donde um cidadão livre pode (e deve - grandes males têm vindo ao mundo do carneirismo da opinião, nenhuns do exercício da liberdade crítica, mesmo que injusta) achar que a obra de Manoel Oliveira não fará escola, nem será inspiradora, nem durará mais tempo do que as vidas dos que o admiraram.

 

O Livrinho Vermelho, de Mao também foi considerado uma grande obra literária e filosófica, no seu tempo. Não era.

 

Às vezes, é preciso o esforço de subir uma montanha para se ver, lá de cima, a paisagem. Quem sobe a montanha Oliveira apenas fica cansado.

 

* Alberto Caeiro.

publicado por José Meireles Graça às 22:07
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