Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

O Público, um caso de estudo do jornalismo activista

O Acção Socialista Público publicou hoje pela manhãzinha uma notícia do jornalista José António Cerejo com o título "Comissão Europeia e Ministério Público chegaram a conclusões opostas no caso Tecnoforma", que informa que o OLAF, o organismo de luta anti-fraude da CE, em 2015, e o MP, em 2017, chegaram a conclusões diferentes sobre a existência de irregularides, o OLAF dizendo que as houve, e o MP que não, num projecto subsidiado envolvendo a Tecnoforma, a empresa onde o Pedro Passos Coelho foi consultor e depois administrador.

2017-11-13 Notícia tecnoforma.jpg

Tenha sido essa a motivação para publicar hoje esta notícia, ou não, ela é muito oportuna para o governo, que tem andado a ser massacrado nos últimos dias por uma questão tão arreliadora quanto de importância relativa, a realização de um evento social da conferência comercial Web Summit no Panteão Nacional, que a tradicional trafulhice arrogante e descuidada do primeiro-ministro quando tentou sacudir a responsabilidade da ocorrência para cima do governo anterior transformou numa caixa de Pondora onde ele, outros governantes actuais, e outras figuras do actual regime socialista, incluindo o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foram apanhados a mentir. Ao distrair o público desta trapalhada, o Público dá-lhes tempo para respirarem e se reposicionarem melhor, talvez mesmo para organizarem um focus group que os ajude a formular uma resposta politicamente mais eficaz do que tem sido até agora. Mesmo que não a consigam, enquanto o pau vai e vem folgam as costas do Costa. Como disse o José Meireles Graça no Facebook, a Tecnoforma é, para o Pedro Passos Coelho, o que são os submarinos para o Paulo Portas, uma coisa que emerge quando dá jeito, e agora deu mesmo jeito.

E a questão da oportunidade não é de somenos importância, porque a conclusão do OLAF que sustenta a existência de irregularidades não é de agora e já tinha sido noticiada pelo mesmo jornalista há mais de dois anos, no final de Julho de 2015, também com um conveniente sentido de oportunidade a poucas semanas das eleições de Outubro. E o despacho de arquivamento do MP é de Setembro deste ano, já tem cerca de dois meses. E a notícia foi publicada hoje.

Não me vou meter na análise dos factos noticiados, nem se indiciam ou não, com solidez ou fragilidade, as irregularidades que os transformaram em notícia. Habituei-me ao longo de toda a legislatura anterior a ser periodicamente exposto a informação que parecia sugerir que o Pedro Passos Coelho era um campeão dos negócios obscuros, e ainda me pergunto porquê ele? que constituiu ao longo da carreira um património e sempre manteve um nível de vida de classe média, e não mais, que é proporcionado pelo salário declarado da ordem dos cinco a sete mil euros por mês, e não os que, com salários da mesma ordem de grandeza, conseguem exibir níveis de vida muito mais prósperos e ao mesmo tempo constituir patrimónios muito mais valiosos, como se o dinheiro desses salários desse para tudo, o que quem os recebe tem perfeita noção que não dá? E habituei-me a descobrir depois, e sempre, que a sugestão afinal não passava de insinuação desmentida pelos factos.

O que me interessa hoje é uma técnica específica utilizada pelo Público para usar a notícia como arma de combate político: o destaque que lhe é dado no site do jornal, tanto em termos de localização como de conteúdo.

Desde o início do dia, ou pelo menos desde que liguei o computador pelas nove da manhã, o topo da página online do jornal foi sempre ocupado pela chamada para esta notícia. Já é hora de jantar e continua a ser. O que está bem. Quando se quer fazer jornalismo activista não se pode desperdiçar um factor tão importante no destaque da informação que se quer realçar como a sua localização.

Mas, curiosamente, o título da chamada para a notícia no topo da página online foi sempre diferente do título da notícia. De manhã, o Público destacou a notícia com o título "Caso Tecnoforma. Bruxelas contraria Ministério Público e diz que houve fraude".

2017-11-13 Notícia tecnoforma - capa manhã.jpg

Os títulos têm alguma semelhança mas semânticas diferentes. O da notícia é factual, porque de facto o OLAF e o MP chegaram a conclusões diferentes. O do destaque é falso, porque implica uma precedência cronológica entre a conclusão do MP, que arquivou o processo por não detectar irregularidades, e a do OLAF, que a contrariou dizendo que houve fraude, que é falsa. A conclusão do OLAF foi publicada em 2015, pelo que não pôde contrariar a do MP, que nessa altura ainda não existia para ser contrariada e foi apenas publicada dois anos e picos mais tarde. A descrever a precedência cronológica real, o título devia ser algo como "Caso Tecnoforma. Ministério Público contraria Bruxelas e diz que não houve fraude".

Este título seria factual, mas seria demasiado pífio como arma de jornalismo activista. Diz o bom senso que quem contraria depois está, não só na posse da informação que contraria, mas também possivelmente de informação adicional que não detinha quem fez a afirmação antes. Que quem corrige, corrige por ter erros para corrigir. Que quem diz por último, diz melhor. E por isso é uma sugestão muito mais convincente da existência de fraude dizer que o OLAF corrigiu o MP do que o contrário. Ou insinuação.

E este título, o falso, foi um sucesso. Foi este que jornais de referência como o Acção Socialista Expresso do Dr. Pinto Balsemão, por um lapso embaraçoso tinha-me esquecido de dizer que o Acção Socialista Público também é um jornal de referênciautilizaram quando divulgaram a notícia do Público: "Tecnoforma. Bruxelas contraria decisão do Ministério Público e diz que houve fraude". Talvez os jornalistas de jornais de referência citem notícias de outros jornais de referência lendo apenas o que está no topo da página online do jornal, sem se darem à maçada de clicarem para a página da notícia e descobrirem o seu título real, para não falar no conteúdo? Ou talvez, e porque eles citam partes do conteúdo da notícia parece mais provável, a tenham mesmo lido e se tenham mesmo apercebido que o título que adoptaram é falso, mas o tenham preferido, talvez por serem também praticantes do jornalismo activista? Em todo o caso, cumprida a missão deste título depois de estar espalhado pelos quatro cantos do mundo, havia que o substituir por outro para também cumprir finalidades adicionais.

E ao fim da tarde o título da chamada de atenção para a notícia, que permaneceu no topo da página online do Público, mudou para "Investigadores de Bruxelas defendem que Tecnoforma tem que devolver seis milhões".

2017-11-13 Notícia tecnoforma - capa tarde.jpg

Da leitura do título da chamada de atenção, no entanto de exactamente a mesma notícia, com o mesmo título e o mesmo conteúdo, a coisa mudou de nível, e já não se perde tempo a discutir visões alternativas do caso, e se terá ou não havido irregularidades, e de que gravidade, mas passou-se directamente para a sentença.

A dúvida é perniciosa para o activismo, que requer mais voluntarismo que reflexão, e se a primeira chamada de atenção arrumava com a dúvida sobre qual das conclusões seria mais correcta, uma vez que a conclusão do OLAF de ter havido fraude refutou a anterior do MP de não ter havido, esta segunda chamada de atenção já dá a fraude por completamente adquirida e já só discute a penalidade a aplicar.

E, sejamos honestos, se o jornalismo activista se dirige a pessoas burrinhas e de opinião já formada com a finalidade de lhes sustentar aquilo em que crêem, o facto de ser feito com cuidado só denota um profissionalismo louvável. O Público está de parabéns. Ou de parabenses, como eu escrevo no Facebook para não ficar a letrinhas vermelhas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 20:21
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