Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

O sono de Nelinha

No sábado fui a uma festa e encontrei outro convidado que me perguntou se os problemazinhos com o cartão de cidadão já estavam resolvidos.

 

É meu leitor, coitado, portanto pessoa de gostos duvidosos, mas nem por isso deixei de o informar que depois da minha cunha à ministra Nelinha tinha esperado e nada.

 

Assim foi, e a razão haverá de ter sido porque não pus nenhum link para o blogue do marido e portanto este momentoso assunto não lhe terá chegado aos ouvidos atentos às necessidades do cidadão.

 

Meter uma cunha é o remédio tradicional para problemas com a administração pública portuguesa. Mas é preciso saber a quem. Pelo que, depois de cogitar, resolvi falar a uma funcionária da empresa onde trabalho que sabia ser amiga de um carteiro, que por sua vez é colega do da minha área de residência.

 

A cartinha que não estava em lado nenhum apareceu em dois dias. E fui com ela, orgulhoso, regularizar a minha situação.

 

Foi o caneco: tive que ir estacionar aos quintos dos infernos e estava uma maralha na repartição, pelo que depois de tirar a minha senhazinha vim cá para fora espairecer. E como me desse conta de que havia muitíssimo espaço para aparcamento em frente à repartição mas estava lá a polícia municipal a enxotar os atrevidos que queriam estacionar, resolvi fotografar a zona com o intuito de fazer uma exposição à câmara local a significar-lhe a conveniência de pôr em surdina, naquele sítio, a sua sanha anti-automóvel.

 

Por um excesso de delicadeza informei um agente do que ia fazer, e que se não quisesse ficar na fotografia só tinha de se afastar uns metros.

 

O que fui dizer? O moço, exaltado, informou-me que se o tentasse fotografar apreenderia o telefone; que eu nunca deveria ter ouvido falar do direito à imagem; e que os contornos de tal direito deveriam ser, mas como se via não eram, ensinados nas universidades.

 

Esta última parte deixou-me incomodado, por admitir que o agente da autoridade estivesse a a assacar-me a condição de professor universitário, possivelmente por influência de ideias erróneas segundo as quais os professores em questão têm necessariamente óculos e um aspecto distinto.

 

Apressei-me a informar o jovem de que não era apenas o ensino universitário que sofria de graves carências, o secundário, como ele próprio ilustrava, não estava melhor; que para me apreender o telemóvel lhe faltava a competência; e que, não o conhecendo de lado nenhum, o tratamento de “você” não me parecia o mais indicado.

 

Relatei o incidente com mais detalhe, por e-mail dirigido no passado dia 6 ao comandante da força. E aguardo pacientemente que este me responda.

 

E então, o cartãozinho? Lá fui atendido, simpaticamente como de costume, e informado de que agora só tinha que esperar uma nova carta, com a morada corrigida, e com ela comparecer no Registo, acompanhada da anterior onde constavam os códigos, e o cartão.

 

Esta última carta veio hoje. E informa-me que posso “proceder à confirmação da nova morada” até ao dia 05.01.2018. E não fica por aqui a atenção: também fiquei inteirado de que nem sequer preciso de ir à repartição, podendo eu próprio promover a alteração via internet desde que seja o feliz proprietário de um “leitor de cartões compatível com o Cartão de Cidadão”.

 

Tenho um micro-ondas, uma manta eléctrica e numerosos outros electrodomésticos que testemunham o meu amor à modernidade, mas realmente leitor de cartões não. E, pior, só poria a hipótese de adquirir um se tivesse a funcionalidade de dar choques eléctricos a quem superintende neste labirinto obsceno.

 

Razão pela qual lá fui, a seguir ao almoço, ao registo civil, lá tirei a senhazinha e lá esperei.

 

Chegada a minha vez,  correu tudo muito bem mas o computador não dava o serviço por pronto. E a funcionária, desalentada, perguntou para os lados onde estava o Tó.

 

Fiquei inicialmente aflito, temeroso de que fosse de minha responsabilidade saber onde o Tó estaria. Mas não: consultado aquele ser mítico, que não  cheguei a ver, veio o veredicto: para estes novos cartões com validade de dez anos o sistema não estava a responder. Teria de lá voltar.

 

Quando? Ai isso não era possível saber, a situação já tinha sido denunciada mas sem resposta nem solução.

 

Mansamente, fui dizendo que já ali tinha estado uma quantidade de vezes; que o meu tempo, sem ser precioso, não é tão completamente inútil que o possa gastar a frequentar repartições; e que me comprometia a lá ir novamente, desde que me marcassem dia e hora, mas não para mais uma deslocação vã.

 

A senhora tomou nota do meu número de telemóvel, para passar a um colega que tem a espinhosa missão de informar os cidadãos de quando os serviços estarão em condições de corrigir os erros que não deveriam ter cometido.

 

Tenho fortes suspeitas de que tanto receberei uma chamada do prestigiado Instituto dos Registos e Notariado como uma resposta do senhor comandante da polícia municipal, acima referido.

 

Ou talvez não. E a Nelinha, entretanto?

 

Ora, estou certo, e francamente desejo, que durma descansada. Merece-o: é voz corrente, e pacificamente aceite, que é um dos melhores ministros deste governo.

 

Pelo menos, é o que diz a comunicação social isenta, que é quase toda. Portanto, deve ser verdade.

publicado por José Meireles Graça às 21:09
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