Segunda-feira, 16 de Maio de 2016

O teste do algodão. Quem manipula mais a comunicação social?

Tanto a direita como a esquerda lançam frequentemente acusações à comunicação social de ser generalizadamente tendenciosa e desonesta. A direita tende a assumir que a esmagadora maioria dos jornalistas é de esquerda, a esquerda tende a assumir que a esmagadora maioria dos jornais é de direita, por via do capital, e ambas assumem que os jornalistas e os jornais manipulam as notícias que publicam para favorecer as suas opções políticas ou ideológicas. Qual delas terá razão, ou terá mais razão?

Tendo esta visão em comum sobre a manipulação da informação, nem todos costumam atribuir o mesmo peso às consequências projectadas da manipulação. Quem tende a partir do princípio que o povo é mais ignorante e manipulável, tende também a pensar que a manipulação da comunicação social é mais determinante para a formação da opinião pública e das suas opções políticas. Quem admite que, mesmo perante informação manipulada, o povo tem alguma capacidade de a filtrar criticamente e se deixa manipular menos, tende a relativizar mais as consequências da manipulação e a denunciá-la mais por motivos éticos do que por recear que influencie as decisões colectivas.

A fronteira entre estes dois grupos de convicções não divide a esquerda da direita, mas os que se sentem mais confortáveis se os outros forem bem controlados dos que se sentem suficientemente confortáveis se eles tiverem liberdade de escolha. Os autoritários dos liberais. Nos Estados Unidos da América, liberal tende tradicionalmente a significar de esquerda, e autoritário, de direita. Quem cresceu até aos 17 anos numa ditadura de direita também tende, por automatismo, a pensar o mesmo. No entanto, na Europa, e mais na Europa do Sul, liberal é classificado como de direita, um conceito difícil de interiorizar para quem cresceu num país de direita autoritária.

E regressando à nossa aplicação das convicções sobre as consequências da manipulação da informação pelos jornalistas? Se olharmos para as estatísticas, e tomarmos por boa a hipótese que quem acredita que a manipulação da informação é mais consequente (os autoritários) se insurge mais violentamente contra a que lhe é desfavorável, então é difícil não atribuir esse galardão à esquerda. De memória, nos últimos 10 anos, lembro-me de dois casos de ataque pela direita à comunicação social: o ataque de um ministro do Santana Lopes ao comentador Marcelo, uma trapalhada que acabou por ser usada como pretexto pelo presidente Sampaio para demitir o governo e dissolver o parlamento, e a ameaça do ministro Relvas à jornalista que se preparava para publicar uma notícia desfavorável sobre ele de revelar que ela vivia maritalmente com um político socialista. Mesmo se neste último caso não se pudesse propriamente considerar a ameaça ao mesmo nível de uma pressão para censurar ou sanear um jornalista, como era no primeiro, mas apenas de esclarecer o grau de objectividade e de isenção que a jornalista poderia ter, ao mesmo nível de dizer que o empresário Luís Montez é genro do presidente Cavaco Silva. Quanto a pressões da esquerda sobre a comunicação social, do primeiro ministro, a deputados e personalidades da maioria de esquerda, a indivíduos e grupos de apoio à maioria nas redes sociais, são tantos, e tão frequentes, e tão violentos, que não cabem aqui nem vale a pena citá-los.

Podemos pois dar como razoavelmente bem provado que a esquerda receia mais as consequências da manipulação da comunicação social do que a direita, ou que a esquerda é menos liberal que a direita.

Mas, afinal, quem é que manipula mais?

Até agora era difícil chegar a uma conclusão objectiva que não dependesse das preferências de quem a formulasse. Mas não mais. O estudo da Aximage para o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios sobre a confiança dos portugueses nas instituições é a prova de algodão que responde cristalinamente a esta pergunta: "São os eleitores do PS quem mais confia nos jornalistas, ao passo que os eleitores com mais confiança no Governo e na Assembleia da República são os do PSD". A manipulação da comunicação social mais prevalecente é a "boa" para os eleitores do PS. Mas isto não é novidade para ninguém, pois não?

 
publicado por Manuel Vilarinho Pires às 20:48
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4 comentários:
De Prof de Teorias da Comunicação a 17 de Maio de 2016 às 11:31
Isso seria muito interessante senão tivesse aqui dois conceitos misturados. Pela teoria e ciência comunicativa e da informação, toda a informação e comunicação colectiva ou social é manipulada, isto porque é feito uma transformação e uma interpretação dos acontecimentos e são formatados a uma linguagem que seja adequada ao canal (rádio, televisão, internet, imprensa etc. ) onde será difundida.
Outra coisa é a manipulação dos órgãos de comunicação e dos seus agentes ou participantes, e aí não falamos de manipulação da informação (que como explicado é sempre manipulada) a que o titulo se refere.
De Manuel Vilarinho Pires a 17 de Maio de 2016 às 15:47
Obrigado pelo esclarecimento, caro Prof de Teorias da Comunicação.
Se me ajudar a encontrar o termo mais adequado para a manipulação das notícias para favorecer um ponto de vista, uma linha política, um interesse económico ou pessoal, que é o que está em causa no meu comentário, terei todo o gosto em corrigir o erro.
De Helena A. a 17 de Maio de 2016 às 11:45
Bom dia Manuel!
Parabéns pelo Destaque no Sapo.
A Comunicação Social é controlada pelos partidos políticos. Os donos das televisões, dos jornais, das revistas, das rádios são os Partidos Políticos, daí apenas sabermos o que lhes convém. Por mim, já há muito tempo que para me manter informada, de forma realista, que recorro à Internet. A Internet pela diversidade é obviamente uma forma mais completa de me informar sobre assuntos que nem sequer são abordados na Comunicação Social.
A Comunicação Social anda à volta dos 3's F's : Fátima, Fado e Futebol. Senão vejamos apenas um exemplo: no campo do Desporto. O Futebol é o Rei e todas as outras actividades desportivas são relegadas para 3º ou 4º plano... Acontecimentos como o Estoril Open têm espaço na Comunicação Social, apenas porque é uma forma de projectar o nosso País internacionalmente. Mas por aqui se pode ver como todas as outras actividades desportivas não conseguem ter o destaque do Futebol: recentemente as Ginastas Portuguesas sagraram-se Campeãs da Europa. Um feito para a Ginástica Desportiva Portuguesa, que aos poucos tem vindo a conquistar espaço nas Competições Europeias e Internacionais! Estas Ginastas foram praticamente "patrocinadas" pelas próprias famílias, uma vez que o Estado Português pouco contribuiu para a ida das mesmas às Competições, para representar Portugal! Ora, um feito destes deveria ser notícia de abertura nas Televisões Portuguesas, mas apenas teve direito a grande destaque na Internet e redes sociais!!!

A par desta há muitas outras notícias que não são veiculadas na Comunicação Social: cientistas portugueses que fazem descobertas científicas importantíssimas, Cientistas portugueses que recebem prémios pecuniários Internacionais para investigação, empresas Portuguesas que ganham prémios de melhores empresas ou de melhor produto, melhor aplicação, melhor vinho, etc , artistas portugueses que ganham prémios na área da representação, da música, da literatura, etc ...
São inúmeros os exemplos que aqui poderia nomear. A Comunicação Social está tão agarrada ao "Fado" português que notícias boas não existem! Daí um conjunto de jornalistas ter-se revoltado e terem criado (há uns bons anos) o site Boas Notícias, onde todas as boas notícias sobre Portugal e Portugueses tenham aí um espaço de divulgação!!!
É uma pena que a Comunicação Social seja controlada pelos Partidos e não seja totalmente isenta! O que este país poderia beneficiar se a Comunicação Social não fosse controlada...
Cumprimentos de Lisboa!
De Manuel Vilarinho Pires a 17 de Maio de 2016 às 16:09
Obrigado pelos parabéns. Eu não sei o que são os Destaques no Sapo, mas são certamente uma coisa boa para merecerem os parabéns.
A minha preocupação neste comentário não é tanto discutir a comunicação social em si, mas sim a sua instrumentalização para finalidades políticas, quem investe mais em instrumentalizar, quem consegue instrumentalizar mais e melhor, e quem atribui mais importância à instrumentalização.
E concordo que é pena que não seja isenta e rigorosa, mas é necessário reconhecer que a falta de isenção e rigor não são apenas determinadas pela sua instrumentalização para finalidades políticas.

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