Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

Ora bolas

Lá lhe deram a Bola de Ouro. Ou, melhor, como alguém disse a outro propósito, não lha deram: ganhou-a.

 

Isto é estranho. Não que ele tivesse ganho, de mais a mais pela segunda vez, mas que antes dele ainda tivesse havido Eusébio e Figo e que Portugal, neste capítulo, tenha mais prémios do que a Espanha ou a União Soviética, por exemplo.

 

Sabe-se que o futebol pode jogar-se com uma bola de trapos, na rua ou num descampado, e as regras do jogo só não são acessíveis, tal a simplicidade, a alguns treinadores, dirigentes e comentadores. Daí o sucesso quase universal do jogo, em particular nos países pobres mas incluindo os ricos, salvo a excepção notória dos Estados Unidos, um país que de toda a maneira não regula bem da bola.

 

Estes craques premiados são a ponta visível de um iceberg. Porque a quantidade de jogadores de origem que o país exporta, e aqueles, normalmente sul-americanos, que são engordados nas nossas ligas para depois rumarem a pastagens mais verdes, deixando para os seus clubes e empresários substanciais mais-valias, desafia a imaginação.

 

E como o Estado, salvo os investimentos faraónicos no Euro, que pouco ou nada acrescentaram à pujança do futebol, e a tradicional promiscuidade entre o Poder Local e os clubes, nunca gastou nada que permitisse adivinhar este sucesso; como os clubes pátrios ou estão falidos ou são pobretas; como os estádios estão desertos, as arbitragens duvidosas e o dirigismo opaco nas suas negociatas e traficâncias: convém procurar a explicação noutro lado.

 

O bairrismo garante que competição, não obstante o tradicional desequilíbrio das arbitragens a favor dos três grandes, um vício tolerado; o merchandising, a televisão, os jornais, alguma afluência, vão garantindo um módico de recursos à modalidade; as mães e os pais embevecidos vão levando os seus meninos à escola do clube, sonhando com destinos milionários que outras carreiras nem sequer prometem; quem gosta de jogar, mesmo homens feitos, e são milhares, joga, mesmo que já com barriguinhas incipientes e sem horizontes desportivos. O futebol está vivo.

 

Mas a chave  do sucesso é a competição, que o Estado não consegue falsificar com o seu intervencionismo, porque seria contra-natura, e a necessidade, porque nisto podemos ser bons.

 

Curioso: os recentes sucessos das empresas exportadoras de vão-de-escada, dos sectores anteontem condenados, segundo sábias opiniões, como o têxtil e os sapatos, também não cessam de ganhar lá fora - há por aí muitos pequenos Cristianos, de modalidades não desportivas. O Estado não lhes costuma dar nem bolas nem medalhas: associa-se ao sucesso, que passa a ser o das políticas, e vai-lhes ao bolso, não vá cometerem o pecado de ficarem ricos.

 

A propósito: A bola é mesmo de ouro? E tem contraste? Bom, então temos que ver como é que é isso do impostozinho, no caso de ela dar entrada no território nacional.

publicado por José Meireles Graça às 15:25
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