Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Ordens honoríficas

A Pátria suspirou, aliviada, com o impedimento, in extremis, da consumação de um crime. A bela Canavilhas, o mefistofélico Magalhães, a diva dos palcos Medeiros, o ominoso Vitalino uniram esforços; e o Ministério Público suspendeu os seus múltiplos afazeres para, com uma diligência que o honra, defender o Estado de Direito, a Cultura, o Património e a economia - com esta publicidade, o país vai ficar entupido de turistas para mirar os Miró.

 

O Governo, apanhado de surpresa com a história de um pintor do qual, possivelmente, nunca tinha ouvido falar, sai claramente derrotado; o Museu Miró, que não foi mencionado nestes dias tormentosos, vê fugir a oportunidade de juntar aos 217 quadros que já tem estes 85 (Miró não era na realidade um pintor, era uma fábrica a vapor de objectos intensamente artísticos, incluindo esculturas, texteis, desenhos e cerâmicas - só de mobiliário design e outros objectos para o lar é que parece que não há notícia); e a Oposição fica definitivamente credenciada como defensora da verdadeira Cultura, o que já se suspeitava.

 

É certo que os nossos palácios, raros e pobretas, estão a cair, as bibliotecas não têm condições, há monumentos em ruínas e os museus de Arte Antiga nem sempre têm condições para expôr o seu acervo nem, muito menos, para o enriquecer. Mas para isso é preciso dinheiro - e não há. Ora, os Miró serviam para abater uma migalha à dívida e, na cabeça de qualquer socialista que se preze, as dívidas não se pagam, administram-se com amor.

 

Todos ganhamos, portanto, excepto a Caixa Geral de Depósitos, à qual se destinava o óbolo. O ideal seria que a Caixa não fosse nossa, e por isso não fôssemos nós o credor a ver navios. Mas não se pode ter tudo e a perfeição - não é verdade? - não é deste mundo.

 

Não podemos porém descansar após este triunfo: há que decidir o que fazer aos quadros. E como há por aí vozes de lisboetas que gostariam de os ver no novo Museu dos Coches - para mim vêm de carrinho - seria oportuna uma onda de opinião que exigisse o depósito no Museu do Côa: já não podemos mais com o centralismo, temos que promover o equilíbrio harmonioso entre as regiões, o contraste entre as obras dos nossos longínquos avoengos e as deste catalão genial presta-se a congeminações cuja profundidade nem ouso imaginar, e Trás-os-Montes e os seus enchidos bem merecem uma invasão de gente de shorts e guia trilingue na mão, já que o interesse pelas gravuras do Côa ficou um tanto aquém das expectativas.

 

Talvez os deputados que se juntaram para pedir à PGR a interposição da providência se pudessem juntar nesta causa; e, é claro, no próximo dez de Junho, esperamos vê-los alinhados para a imposição das merecidas condecorações - o grau de Cavaleiros da Ordem da Patetice Contumaz não estaria mal.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 22:24
link do post | comentar
2 comentários:
De Maria João Marques a 6 de Fevereiro de 2014 às 00:31
Vê-se mesmo que isto é um texto de um reacioário que só gosta de pintura até ao impressionismo e incapaz, ao invés do nosso PR, de apreciar Miró como 'pintor'. Tsss, tsss, tsss.
De José Meireles Graça a 6 de Fevereiro de 2014 às 01:27
Pior ainda, Maria João, o que eu sou mesmo é grunho: o que penso da maior parte da literatura do séc. XX, e de muita música, até a mim me faz corar. Consolo-me com a ideia de haver quem tenha fixações em épocas pretéritas, por exemplo a transição do séc. XVIII para o XIX - costumes, ambientes e, sobretudo, personagens. Tsss.

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Kudos!
Bem visto, os três estarolas!!
Tenho tentado perceber este conserto gadal da tsu,...
Resta-nos a alegria de ver a tristeza deles por nã...
Os pulhiticos actualmente a "governar" parecem aqu...

Arquivos

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

fmi

francisco louçã

geringonça

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter