Sábado, 1 de Março de 2014

Passeando de balão

Sampaio da Névoa, rector emeritus da Universidade de Lisboa, dirigiu-se ao povo de Abril, reunido na Aula Magna, lugar recentemente tornado ilustre pelas orações de outros clérigos, e declarou que a poesia é a única prova concreta da existência do homem.

 

A plateia, parece, irrompeu em aplausos. E que plateia: estava lá Jorge Sampaio, que se especializou como Presidente em recomendar serenidade em todas as situações, mesmo quando ninguém estava nervoso; Cravinho, um conhecido campeão da luta anti-corrupção, oportunamente expedido para o Banco Europeu de Investimentos, para um lugar egrégio que contrariadamente aceitou; Joana Marques Vidal, uma magistrada discreta de cuja existência a opinião pública tomou conhecimento pelo seu amor incontrolável ao falecido pintor Miró, cujos quadros se comprometeu, com a autoridade que não tem, a não deixar sair do País; Ferro Rodrigues, um ex-embaixador na OCDE, ex-secretário-geral do PS, ex-ministro e ex uma data de coisas; Guilherme de Oliveira Martins, Presidente do Tribunal de Contas, notório pela sua honestidade e a sua inutilidade; e todo um friso de ilustres, uns por obrigação, presume-se, e outros por devoção - um discurso de Sampaio da Névoa é como um passeio de balão, apanha-se ar fresco mas não se vai a lado nenhum.

 

Fiquei escandalizado: que eu julgava assente, desde Descartes, que o simples facto de pensar era a garantia da existência do Homem - cogito ergo sum, como dantes se aprendia no Liceu. Mas não - é pelos vistos preciso pensar em verso, um grande embaraço.

 

Isto já me deixou meditabundo. Mas Névoa alerta para uma guerra que está insidiosamente em curso contra as "Artes" ("sim, a guerra", sublinhou), e tal ocorrência é de gelar o sangue. Infelizmente, não se deu ao excessivo trabalho de concretizar no que ela consiste, e aqueles cidadãos que, como eu, não veriam com bons olhos estas iniciativas bélicas, vêem-se impedidos de dar o seu contributo para o bom combate.

 

Finalmente, protesta a necessidade de "recuperar a energia de Abril", recordando o jovem que era então, quando vivia essa "situação única, irrepetível", que fazia crer que "o futuro de todos estava no mais pequeno gesto de cada um".

 

Isto é comovente: eu também era jovem nessa altura, embora nunca me tivesse ocorrido que os meus pequenos gestos (assoar o nariz, limpar os óculos, fazer xixi) dessem quaisquer garantias de um futuro radioso para a comunidade.

 

Mas, lá está, como não sou poeta não sei pensar, e em bom rigor talvez até nem tivesse existido, então e agora. O que, tudo visto e ponderado, nem seria má ideia - sempre me poupava a vacuidades pedantes.

publicado por José Meireles Graça às 13:28
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