Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016

Por uma pedagogia alternativa para o treino de tropas especiais

Os comandos são treinados para fazerem coisas que nem eu nem os leitores conseguiriamos fazer, mesmo que um dia perdessemos o juízo e ousassemos tentar. Por exemplo, resgatar um refém de um bando de talibans prontos a matar tudo o que mexe aprisionado numa caverna algures nas montanhas do Afganistão. Ou, num processo revolucionário de transição para a democracia ou para a ditadura, neutralizar unidades militares que aprisionam e torturam inimigos de forças políticas extremistas sem nenhuma representatividade popular que, por via da força da rua, estão na mó de cima. Coisas feias que podem envolver o risco de ser morto, e ser mesmo morto quando se falha, e a necessidade de matar. De ser mau.

A justiça está em vias de declarar inapropriado, e até carregado de crimes, o treino de comandos baseado no abuso de autoridade e nas ofensas à integridade física e à personalidade motivadas pelo "ódio patológico, irracional" dos instrutores aos instruendos que consideram inferiores por ainda não fazerem parte do grupo de comandos cuja supremacia apregoam. Acho bem. Também não gostaria de descobrir que os meus filhos tinham sido tratados deste modo nas escolas que frequentaram. Nem eu próprio, apesar de ser do tempo em que cada erro no Ditado era cotado com uma reguada na mão, fui alguma vez sujeito a tratos desses, talvez por ter tido a sorte de não fazer muitos erros. Dignidade acima de tudo.

Chegado aqui, e sendo certo que considero que o treino de comandos não deve matar nem incapacitar candidatos, devo confessar que não tenho nenhuma ideia clara de que treino é necessário ministrar para conseguir transformar jovens voluntariosos candidatos a uma força de elite em militares com coragem, força, resiliência e resistência suficientes para conseguirem desempenhar com sucesso missões de dificuldade e perigosidade extremas em que a mais pequena falha ou insuficiência pode resultar na morte deles e no incucesso da missão, muitas vezes insucesso da missão significando outras mortes de inocentes que a missão pretendia proteger? Haverá alternativas ao treino duríssimo e, pelos vistos, carregado de ilegalidades como agressões e injúrias, mesmo que não sejam derivadas, como diz a justiça, de ódio patológico e irracional aos candidatos, mas cometidas racionalmente para os habituar a operar em situações de stress extremo? Tenhamos esperança que sim.

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Em alternativa, talvez os comandos pudessem fazer um treino fisicamente mais leve, mas lúdico e estimulante, que até candidatas ao Miss Portuguesa pudessem frequentar, mais baseado em estratégias de aprendizagem inovadoras, no respeito pelo indivíduo e na aceitação do outro e das diferenças do que na supremacia do grupo e na sobrevivência pessoal a todo o custo em situações limite, preferencialmente com a possibilidade de acumular créditos em unidades curriculares em acampamentos livres de hierarquias e de opressões onde pudessem desafiar os papéis do género e os pudores em experiências de tocar em pessoas do mesmo género, binário ou não, e expandir os horizontes da percepção através da inalação de substâncias psicoactivas, não deixando de oferecer passagem administrativa aos instruendos quando fossem apanhados a copiar nos exames para não os traumatizar, como acontece na formação de outras corporações. Em suma, talvez se pudessem formar comandos felizes em vez de comandos maus. Podia-se até substituir a designação Comandos, com a sua carga desigual e hierárquica, por uma mais igualitária, como por exemplo Confrades. Isso sim, seria muito bom.

É verdade que, se por uma volta qualquer do destino fosse eu que um dia me apanhasse refém de um bando de talibans na tal caverna escondida nas montanhas do Afganistão, preferiria ser resgatado por um grupo de comandos maus que entrassem por ali dentro a liquidar os raptores e a retirar-me de lá vivo, a ser resgatado por um de procuradores que mandassem notificar os raptores do crime que estavam a cometer e das medidas de coação, ou por um de confrades pacifistas que incentivassem a resolução da situação através do diálogo, do respeito mútuo e, talvez, da partilha de um charro.

Mas isto sou eu que sou egoísta e penso mais na minha sobrevivência do que na felicidade deles.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:21
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1 comentário:
De Jose Domingos a 19 de Novembro de 2016 às 12:09
Assim teríamos comandos como devia ser. JAIME NEVES deve dar voltas no tumulo cheio de vergonha.
Os militares estão subjugados ao poder politico, porquê?

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