Terça-feira, 6 de Maio de 2014

Praia à tarde

Desde há 40 anos que o país se dividiu em duas grandes famílias políticas: a dos que acham que se deve expropriar os ricos e, com o produto do esbulho nas mãos do Estado, pôr este a administrar a riqueza, o investimento, a colectividade e a felicidade geral que fatalmente resultariam de um tal programa; e a dos que entendem que o Estado sim senhor, mas sem liquidar completamente a iniciativa privada, por se verificar que, lamentavelmente, onde ela não existe, as pessoas são iguais na pobreza.

 

Do lado dos comunistas, os que o são e os que julgam que não lhes fazem o jogo, o programa manteve-se e mantém-se inalterado, apenas variando semanticamente a propaganda que serve o propósito: dantes tratava-se de construir a sociedade socialista, a ditadura do proletariado e o resto da tralha revolucionária, e agora trata-se de aperfeiçoar o capitalismo, a tal ponto que este, quando estiver quase à beira da perfeição, deixe de o ser, como na história do burro do escocês - é este o programa da CGTP para o mundo do trabalho, e o do PCP para o mundo em geral.

 

Não fosse o PS, desde que Soares foi à Estação de Santa Apolónia esperar a raposa branca (que logo ali deu, em cima de um carro de combate, um inestimável contributo para a iconografia da Revolução dos Cravos), viver permanentemente apavorado que o PCP o ache fascista, e talvez não se tivesse levado tanto tempo a fechar o manicómio em autogestão, a rever uma Constituição que nunca cessou de ser, como ainda hoje é, obsoleta, e a corrigir algumas das burrices legislativas que tolheram o desenvolvimento normal do país; e tivesse a Constituição sido aprovada com o voto contra do PPD, talvez não se tivessem enraizado tão profundamente na comunicação social, e na opinião pública, ideias de esquerda que só a dura realidade tem vindo, lentamente, a sapar.

 

Foi assim. E neste pano de fundo se encaixou a grande conquista do Centrão, que foi a adesão à CEE, primeiro, e a evolução para a UE, depois.

 

É hoje um segredo de Polichinelo que parte dos nossos problemas nasceu com a UE e o Euro - não porque sem a nossa adesão à moeda única houvesse qualquer garantia de a gestão da coisa pública ser mais prudente ou sensata, mas porque por trás da cortina do Euro o país pôde obter crédito, e portanto contrair dívida, a um nível que sem ele não teria sido atingido - bateríamos na parede mais cedo, em suma.

 

Mas a anulação do erro da adesão não só, na opinião quase universal de quem faz a opinião, criaria mais problemas do que os que resolveria, como não há o mais leve indício de qualquer quebra significativa no apoio da opinião pública à ideia da construção europeia. Sem os entusiasmos do tempo do ami Mitterrand, decerto, e da Europa connosco, antes talvez à boleia resignada da ideia de que, governados por outros, pode ser que nos safemos.

 

Infelizmente, há a perspectiva, que as sondagens timidamente apontam, de virmos a ser governados pelo Sr. Seguro. A personagem, em si, não justifica que sobre ela se diga muita coisa, por manifesta falta de superfície - todos os dias alguém contrasta o que ele diz hoje com o que disse ontem, para salientar o desnorte, mas isso é o menos: Passos não fez exactamente o que disse que ia fazer, tanto no que toca à reforma do Estado como ao aumento de impostos, e o eleitorado já interiorizou a ideia de que tem que fazer, em relação às promessas dos políticos com probabilidade de chegarem ao Poder, um grande desconto.

 

O mais é que, não fazendo ninguém, nem o próprio, ideia do que um governo Seguro fará, a pressão para que regressemos ao tempo dos desígnios e das visões será demasiado grande: todo o prócer do PS com alguma da categoria que o titubeante Seguro não tem - o edil Costa e o tribuno Assis, por exemplo - tem, se perguntado, ideias firmes sobre apostas: na educação, na ciência, nas novas tecnologias, no mar, na recuperação do património edificado e em tudo o mais que os conforte na ideia de que são estadistas e que têm solução para o nosso problema. E como para colher os frutos deste empreendedorismo estatal há interessados e beneficiários, que berram como cachorros desmamados, mas não os há para defender uma ideia de interesse público que não tenha directamente nada que ver com o seu interesse pessoal, sobra que, se Passos ganhar, resta uma dúvida:

 

Terá força e vontade para fazer, ainda que tarde e mal, a reforma do Estado que não pôde ou não soube fazer cedo? E, se Seguro ganhar, resta outra:

 

A Europa e o mercado emprestam?

 

Porque, se a reforma, com Passos, não for feita, condenamo-nos a crescimentos medíocres até que a Europa caia sob o peso das suas contradições (como dantes se dizia do capitalismo); e, se Seguro durar o bastante para que o deixem pôr em prática (e no Diário da República) os disparates que povoam a cabeça da sua entourage, condenamo-nos a um novo resgate.

 

A próxima mega-sondagem, a 25 de Maio, será sobre esta escolha, ainda que não devamos atribuir a uma sondagem a mesma importância de umas eleições verdadeiras. Porque quem vai ao certo para o Parlamento Europeu não tem, fora o significado político nacional, qualquer importância.

 

Não irei à praia. Mas aconselharia, se o meu conselho tivesse qualquer peso, que os meus concidadãos só fossem de tarde - votando de manhã.

publicado por José Meireles Graça às 21:32
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2 comentários:
De Maria João Marques a 7 de Maio de 2014 às 14:24
Estive quase para partilhar isto no fb, Zé Maria, mas com este apelo ao voto final - e depois da gracinha 'vamos aumentar o IVA e a TSU' - iria contra a minha momentânea consciência. Tal como às vezes é necessário pôr a criançada de castigo, também os partidos da maioria precisam de aprender umas lições - para seu benefício e meu.
De José Meireles Graça a 7 de Maio de 2014 às 14:57
Olha, Maria João, se já tivesse visto a nova legislação, da qual só tive conhecimento hoje, que me obriga a contratar um técnico para encher papéis a dizer que os gases que uso são os gases que uso, em vez de ter feito este post tinha feito um só com palavrões. Redução dos custos de contexto my ass, esta gente não tem emenda.

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